Acabo de terminar o volume de 764 páginas de Domingos Meireles: 1930: os órfãos da revolução. Levei pouco mais de um mês na leitura, dadas as condições atuais de temperatura e pressão; mas fui conduzido de forma tão sutil e impressionante pelo universo político da República Velha que termino a leitura com um misto de “eu já sabia” e o.O.
O autor faz um relato muito impressionante da mentalidade da época, com seus grupos políticos conservadores, opressores, comunistas, militares e das jogadas midiáticas de que todos eram protagonistas em tentativas nada subliminares de se manipular a opinião pública através dos jornais.
Impressionante mesmo foi ver quanto da mentalidade limitada e obscura dos personagens de todos os lados das forças políticas de da década de 20 continuam aí, presentes, firmes e fortes não só no ideário político dos nossos líderes – já que hoje temos sim bons exemplos de homens públicos “da era contemporânea” – mas na mente da população em geral. Nossos colegas de trabalho e de escola, nossos amigos de bar, repetindo hoje como se fossem ainda novas as mesmas desculpas, talvez um pouco mais floreadas pelo tempo, que revestiam as decisões políticas baseadas em interesses pessoais que reinavam no Brasil do Café.
Lá se vão 79 anos dessa história. E a solução ainda parece longe. O livro termina no início dos primeiros 15 anos de poder de Vargas, em 1930, belo gancho pra eu retomar a leitura de Brasil: de Getúlio a Castelo, do Thomas Skidmore.
Meu objetivo é simples: tentar entender como chegamos ao ponto em que chegamos – que caminhos a política e a opinião pública tomaram nos últimos 100 anos que culminaram nas bases políticas e na mentalidade social que hoje temos, ainda que precárias. Meireles foi muito feliz em me passar um panorama multi-partidário da política brasileira no primeiro quartil do século XX. O plano é voltar a ele em “As noites das grandes fogueiras”, sobre o período da Coluna Prestes, passar por Skidmore em sua descrição dos anos de 30 a 86, contrastá-lo com Gaspari na sua releitura da ditadura, e aí partir para os anos da redemocratização. Haja tempo!
Há muito tempo eu não lia algo tão lúcido em matéria de comunicação interna em momentos crise, para empresas de todos os portes. Saiu em marçona Revista Amanhã, uma entrevista com Analisa Brum, diretora da HappyHouseBrasil.
Nesse momento, mais do que gerar muita informação, precisamos nos municiar de comunicação focada, com qualidade e massa específica, que é a única que vai segurar a nossa defesa frente a este cenário.
O Portal AMANHÃ traz a íntegra da entrevista com a consultora Analisa de Medeiros Brum publicada na edição de março. Para a diretora da HappyHouseBrasil, em tempos de más notícias, a comunicação com empregados exigirá muito dos líderes
Por: Eugênio Esber / Redação de AMANHÃ
Como desembrulhar um pacote de medidas duríssimas em plena época de Natal? Aliás, fazer ou não fazer a festa de confraternização? Em fins de novembro, esses e outros dilemas tumultuaram a agenda de companhias acostumadas a distribuir agrados inesquecíveis a seus funcionários. Foi um período especialmente tenso para Analisa de Medeiros Brum, fundadora da HappyhouseBrasil, uma agência que cuida do relacionamento das empresas com seu público interno. Ao mesmo tempo em que precisava tomar decisões sobre sua própria empresa e os 70 funcionários que trabalham na sede, em Porto Alegre, Analisa tinha de orientar seus clientes – entre eles, mamutes corporativos como Vale e Gerdau, além de Amanco, Braskem e Brasil Telecom, entre outras companhias. Autora do primeiro livro publicado no Brasil sobre endomarketing, tema que já lhe rendeu cinco outro títulos desde 1994, expõe nesta entrevista a AMANHÃ muito do que disse a seus clientes e do que pôs em prática na sua agência em meio ao vendaval do final do ano passado. A conversa, publicada em parte na edição 251 de AMANHÃ, de março, pode ser lida agora na íntegra. Confira.
A gente já sabe de toda a revolução que as mídias sociais causaram, do deslocamento da mídia tradicional, da distribuição da produção, da popularização, das respostas e etc.
O que poucas vezes a gente viu ainda são casos sérios de debate e de balanço inteligente entre a mídia social e o poder real. O vídeo abaixo é muito interessante e conta três histórias sobre o uso político do Twitter, Facebook e das Mídias Sociais. Elas mostram, basicamente, que a mudança vem de onde a inovação está, não de onde a tecnologia está.
0′30″ – Nigeria elections transfers technology and social capital to the US.
6′50″ – China’s great firewall didn’t see it coming.
13′30″ – Obama: “i’m gonna take my lumps on this one”
Nunca foi tão fácil e rápido jogar pedras no telhado do vizinho.
Preparar estratégias pensando na nossa capacidade de combate e de resposta inclui, além de formar nossas defesas com base nas informações existentes: não criar polêmicas desnecessárias, não ficar calados, mas não gerar informações novas que não possam ser sustentadas e não usar de terceiros para dar informações institucionais. O risco que corremos não é sempre o mesmo. O apedrejamento pode ser merecido ou imerecido; justo ou injusto; amador ou profissional; massivo ou tímido; não existe fórmula – a única certeza é que o que vem são pedras mesmo, de verdade. Nesse sentido, as ferramentas, inclusive as jurídicas, funcionam somente como o muro que recebe as pedras, mas nunca substituirão as pessoas que pensam e montam a negociação com os adversários.
Resposta da Dafra: usou a tática jurídica e tirou os filmes do ar por infringirem a lei de direitos autorais.
Resultado: os vídeos continuam lá e a campanha continua aumentando. Só o site viralvideochart.com conta mais de 15 cópias e cerca de 250.000 exibições.
Lição: a mesma do vídeo da Cicarelli – era melhor não ter feito nada. Tirar os vídeos do ar ao invés de oferecer uma resposta honesta às críticas só aguça a curiosidade do usuário, além de criar um “desafio” informal pra que o vídeo se reproduza cada vez mais. Se a Dafra tivesse dado uma resposta técnica, diretamente ao usuário inicial, e tirado seu time de campo, a polêmica seria muito menor. Resta saber se ela viu quando a polêmica começou ou se só foi perceber um mês depois. A Dafra converteu o público do youtube em seu inimigo.
Resposta da MPM: Até agora nenhuma, exceto uma declaração de um dos criadores, antes da polêmica, que só aumentou a ira dos comentaristas. Alguns perfis fake foram criados para defender as idéias da MPM, mas como de praxe, foram severamente reprimidos pelos comentários dos demais.
Resultado: O public-bashing continua depois de uma semana só vai morrer quando um fato novo tomar o lugar deste ou quando os formadores de opinião se cansarem.
Lição: Todo cuidado é pouco quando se trata de paixões nacionais – as polêmicas são inevitáveis. Mas quando as críticas chegam de gente “de peso” (como o Mario Amaya) e/ou de projeção (como o Merigo), designers e publicitários respeitados e formadores de opinião, convém não ignorar. Se a MPM tivesse abertamente respondido às críticas, defendendo sua criação ou reconhecendo seus erros, a polêmica teria esfriado no começo da semana passada. O que alimentou os leões foi justamente a falta de um posicionamento claro por parte da agência. Ainda tem gente esperando que ela volte atrás e diga que foi uma pegadinha. O rastro desse episódio é curto, atinge só a comunidade dos “antenados” em publicidade, mas em se tratando de uma MPM, ele não é nada desprezível. A MPM ignorou o seu público e vai sair manchada da história.
Resposta da GM: Nenhuma resposta direta, até agora. Mas a alimentação dos canais de informação foi muito reforçada em 2009, com fatos positivos e negativos, preparando a empresa para o inevitável. a GM mantém blogs da alta direção falando sobre o assunto, ao mesmo tempo em que coloca seus assuntos-chave de produtividade, novos desenvolvimentos e inovação. Entre eles estão:Driving Conversations, dedicado ao público europeu, onde o VP de Comunicação para a Europa fez um comentário muito interessante e honesto sobre a relação da Opel com a imprensa e o Fast Lane, dedicado ao público mundial, mas principalmente dos EUA, onde o CEO anunciou a falência, respondeu comentários e participou de ações interativas, além da participação de outros altos-executivos.
Resultado: Aparte os blogs que insistem em chamá-la de Government Motors, o que, por si só, é uma piada pronta, inofensiva e que já está no ar desde 2008, não deve haver muita repercussão além dos fatos – já que a GM responde aos jornalistas e ao público em geral com eles. Chama-la de Goverment Motors é, no mínimo, uma piada legítima e espirituosa – tenho certeza que o próprio Fritz Henderson riu. Uma empresa com bases sólidas de informação online (o FastLane está no ar desde 2005) não vai sucumbir a ataques momentâneos, por mais pesados que sejam, se a estratégia de reinvenção for mesmo uma realidade.
Lição: Ao que parece, a estratégia da GM é a de continuar no seu caminho, divulgando e dando espaço para contribuições não só de jornais mas tb de blogs na sua pagina, apoiando-se no nome que não vai cair assim tão facilmente e na relevância do material que está publicando. Ao optar pela idéia de reinvenção, a empresa está admitindo que errou durante um tempo (o próprio texto do vídeo diz isso muito claramente) e isso dá a ela, junto à grande maioria da opinião na internet, uma carta meio-branca pra usar – todo mundo gosta de gente e de empresas humildes, principalmente quando elas empregam dezenas de milhares de pessoas e podem dizer sem medo que são inovadoras. Importante dizer que admitir os erros e os defeitos em um único vídeo é bom, mas não gera relevância. O conjunto de pessoas certas falando as coisas certas com frequência é que tem feito o acontecimento. A GM transformou os próprios funcionários e todas as suas ações em veiculadores e trata a mídia como adversária, não como inimiga.
Resposta da Petrobrás: Por enquanto, está rebatendo cada um dos artigos negativos no blog, usando ao máximo as armas da imprensa contra ela.
Resultado: Por enquanto, extremamente crítico por parte da imprensa e positivo por parte da opinião pública, o que vai fazer com que as investigações sejam mais firmes e pesadas, mas que o apoio à empresa está mais sólido por parte da população virtual.
Lição: Existem várias cartas a ser jogadas e essa batalha ainda está no começo. A briga deve estender-se para os domínios da publicidade e tomar contornos econômicos inclusive, um tipo de pressão que a Petrobrás pode fazer sobre a imprensa, mas que provavelmente deixará para último caso, porque pode ser percebida como jogo baixo, algo como o que alguns governos costumam jogar. Ao que tudo indica, a empresa está construíndo uma base sólida de informações, um respositório de defesa visando vencer no ringue uma briga política, antes que ela vá ao tapetão. A reação da imprensa tem sido ainda muito tacanha, acuada, mas pode ser que resolvam em breve sair com alguma grande notícia ou furo que desarme a estatal – nenhuma base de informação está imune a um furo bem dado, e todo mundo sabe que a Petrobrás está longe de ser uma ovelhinha no jogo político. Resta saber como ela está se preparando por trás dos panos pra quando esse momento chegar. A Petrobrás transformou a opinião pública em um aliado e produziu um feito: um veículo chapa-branca com mais credibilidade e apoio do que a imprensa supostamente livre.