Published on outubro 31st, 2009 by admin. Filed under comentários | 6 Comentários
comentário postado no fórum do CouchSurfing Belo Horizonte, a respeito da discussão sobre o caso Uniban (mais sobre o caso aqui e aqui, tem muita coisa falada sobre isso na internet, mas não sei quantas valem a pena linkar.)
Nenhum nível de desrespeito passivo (como o que se poderia dizer que foi o dela) justifica a violência. E a partir do momento que a resposta é violenta, o agressor perde todo e qualquer direito que poderia ter.
O que fica mais forte pra mim, desse caso, é que as pessoas realmente acreditam que por ter um comportamento diferente do “padrão” o outro cede ao público o direito de tratá-la como bem entender, com toda a violência que quiser – como se a estivesse recusando o status de “ser humano”, de “pessoa respeitável” – como se o respeito viesse do comportamento padrão, e não dos direitos fundamentais da pessoa. É esse entendimento que está por trás de quem afirma que ela mereceu, ou pior, pediu pra ser insultada.
depois do comentário, o marcelo me chamou à atenção para os termos, com razão:
Admito, errei em dizer que a pessoa “perde todo e qualquer direito que poderia ter”. Na verdade o que eu quis dizer é que quando a resposta a um ato passivo vem carregada de violência, o assediador perde o direito (no senso comum do termo, não no legal) de dizer que desaprova o ato que gerou a violência.
Minha defesa é da idéia que, de qualquer forma, mesmo que ela tivesse cometido um crime, mesmo que ela tivesse ido nua, isso não justificaria a resposta violenta. Justificaria que alguém chamsse a polícia, não que a “turba” tentasse a própria justiça.
E esse não foi o caso, já que os alunos, pelos relatos, não estavam procurando justiça, e sim fazendo um julgamento e um linchamento moral por conta própria (fruto da mentalidade que a mulher “vulgar” é um ser inferior que eu discuti na msg anterior) – não consigo pensar que isso seja resultado de eles se sentirem desrespeitados, e sim de eles se sentirem mais dignos de respeito do que a moça. Nada menos verdadeiro, como se vê.
No sentido legal, os cometedores de crimes perdem sim alguns direitos, não todos, mas o direito à liberdade é o mais claro deles. No caso dos alunos, acredito que no mínimo eles perderam o “direito” (de novo no sentido popular) ao respeito às suas opiniões. Se não são capazes de respeitar o comportamento alheio, como poderiam pedir respeito ou invocar direitos (que não os seus fundamentais: à vida, à saúde, etc)?
Não sei dizer se ela infringiu a lei ou não, principalmente num contexto social em que as prostitutas não são presas por atentado ao pudor e o carnaval permite pessoas seminuas ou apenas com os genitais tapados. Nesse contexto, acho difícil sustentar que a roupa, qualquer que fosse, seja uma forma de desrespeito ativo.
A única explicação para a reação reside no fato de que ela estava na universidade, e não em lugares onde a hipocrisia da sociedade “toleraria” tal comportamento que seria “ignorável” ou “aceitável” como numa esquina escura ou na praia/clube (respectivamente).
Foi em nome dessa hipocrisia que as pessoas se sentiram no direito de reivindicar uma punição – ou provocá-la eles mesmos – não por se sentirem desrespeitados no seu direito de não sofrerem “atentado a seus pudores”.
Esse assunto me deixou trise, muito triste.
[Update: 1h01 - tem mais um texto bacana aqui, acho que os únicos textos que valem a pena sobre esse episódio (até agora eu já li uns 10 ou 12 pelo menos), são os que foram escritos pensando no lado humano da coisa, não nos centímetros. Infelizmente, os que falam dos centímetros ainda são maioria, nos jornais e na tv inclusive.
]
admito, errei em dizer que a pessoa “perde todo e qualquer direito que poderia ter”. Na verdade o que eu quis dizer é que quando a resposta a um ato passivo vem carregada de violência, o assediador perde o direito (no senso comum do termo, não no legal) de dizer que desaprova o ato que gerou a violência.
minha defesa é da idéia que, de qualquer forma, mesmo que ela tivesse cometido um crime, mesmo que ela tivesse ido nua, isso não justificaria a resposta violenta. Justificaria que alguém chamsse a polícia, não que a “turba” tentasse a própria justiça.
E esse não foi o caso, já que os alunos, pelos relatos, não estavam procurando justiça, e sim fazendo um julgamento e um linchamento moral por conta própria (fruto da mentalidade que a mulher “vulgar” é um ser inferior que eu discuti na msg anterior) – não consigo pensar que isso seja resultado de eles se sentirem desrespeitados, e sim de eles se sentirem mais dignos de respeito do que a moça. Nada menos verdadeiro, como se vê.
No sentido legal, os cometedores de crimes perdem sim alguns direitos, não todos, mas o direito à liberdade é o mais claro deles. No caso dos alunos, acredito que no mínimo eles perderam o “direito” (de novo no sentido popular) ao respeito às suas opiniões. Se não são capazes de respeitar o comportamento alheio, como poderiam pedir respeito ou invocar direitos (que não os seus fundamentais: à vida, à saúde, etc)?
Não sei dizer se ela infringiu a lei ou não, principalmente num contexto social em que as prostitutas não são presas por atentado ao pudor e o carnaval permite pessoas seminuas ou apenas com os genitais tapados. Nesse contexto, acho difícil sustentar que a roupa, qualquer que fosse, seja uma forma de desrespeito ativo.
A única explicação para a reação reside no fato de que ela estava na universidade, e não em lugares onde a hipocrisia da sociedade “toleraria” tal comportamento que seria “ignorável” ou “aceitável” como numa esquina escura ou na praia/clube (respectivamente).
Foi em nome dessa hipocrisia que as pessoas se sentiram no direito de reivindicar uma punição – ou provocá-la eles mesmos – não por se sentirem desrespeitados no seu direito de não sofrerem “atentado a seus pudores”.
Published on outubro 26th, 2009 by admin. Filed under história, nerd | Nenhum Comentário
Falei aqui semana passada sobre a coluna aí da direita e as minhas recomendações. Hoje, domingão, resolvi ler mais algumas coisas e acabei caindo, veja você, na minha antiga barra de favoritos, onde eu costumava guardar a lista de blogs que acompanhava em um passado distante.
Revisitar aqueles endereços me deu uma sensação interessante. Havia talvez pouco mais de um ano que eu tinha trocado o Firefox pelo Chrome como browser oficial – troca que desfiz há 2 semanas. Mas há também bons 4 anos (acabei de recuperar meu e-mail de validação – 25 de julho de 2005 – meu deus!*), que eu uso o Bloglines regularmente.
Mas interessante mesmo foi ver quantos daqueles endereços ainda estão ativos, me perguntar por que eles não haviam sido adicionados ao meu leitor regular – qual foi a minha mudança de percepção da importância daqueles blogs quando passei a usar um reader? Fiquei triste com as notícias (em alguns casos, anos atrasadas – viva o armazenamento ilimitado…) de que outros haviam fechado, mas isso é da natureza de escrever, não da internet. Escritores de livros também param de escrever quando perdem seus motivos e deixam obras incompletas que às vezes valem milhões – o que a internet fez foi levar essa possibilidade para os “comuns”, que nunca se aventurariam a escrever um livro, mas que escrevem páginas e páginas online que renderiam bons tomos.
* comentando sobre isso com o Bruno no msn, acabei me lembrando de coisas mais antigas ainda. Em pensar que meu primeiro PC tinha tela de 14″ polegadas com impressionantes 16 tons de cinza e um PC 386 DX2 de 33mhz que tinha um botão turbo pra aumentar pra 66mhz e um negócio estranho chamado Placa de Fax/Modem USRobotics 9600kbps que não servia pra nada. Naquela época não tinha esse negócio de vídeo/audio/modem on-board, todo mundo tinha caixas de floppys de 5 e 1/4″ (depois de 3 e 1/2″). E isso foi antes de o meu pai comprar o nosso primeiro Kit Multimídia (um nome chique pra uma placa interna com caixinhas de som e drive leitor de cd). Lá se vão 16 anos, e esse assunto vai render um próximo post aqui, #fato!
Published on outubro 23rd, 2009 by admin. Filed under :o) | 1 Comentário
A coluna da direita desse blog é gerada automaticamente. Ela contém todos os sites que eu leio regularmente através do Bloglines, um serviço precursor do Google Reader e tão bom que eu tentei migrar mas não consegui. A cada semana, a coluna cresce algumas linhas por conta de novas fontes de informação interessantes que eu vou coletado nas minhas navegações.
Essa semana adicionei um novo serviço aqui, que são meus achados do StumbleUpon, um serviço bacana de coleta de informações específicas. Tipo uma caixa onde você joga tudo de bom que vê na internet, pra outras pessoas “tropeçarem” nelas.
Então, queridos leitores, quando este escrevedor ranzinza não tiver assunto aqui, dê uma navegada nas barras laterais, lá com certeza vai ter!
Published on outubro 22nd, 2009 by admin. Filed under :o), notinhas | Nenhum Comentário
Depois do post melancólico de ontem, nada como dar uma aliviada no ar daqui.
Troquei a imagem do topo, que tava deixando o layout muito escuro. Agora tem um sorrisão…
E pra não deixar um post de duas linhas, abaixo tem uma nova produção. Um material que eu preparei pra falar como convidado na G30 Comunicação e Marketing ontem sobre metodologias de Gestão de Projetos em Comunicação:
Lá no Slideshare tem mais 3 outros documentos que preparei pra palestras por aí. Se interessar, clica no meu nominho aqui em cima e divirta-se!
Published on outubro 21st, 2009 by admin. Filed under bichos mentais | Nenhum Comentário
Pátria Minha
Vinicius de Moraes
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”
Tenho uma relação muito curiosa com esse poema. Tão curiosa que me incomoda fazer um texto em que ele fique abaixo do que eu escrevo – ele me acompanha, faz parte da minha construção. O lugar desse poema é em todas as primeiras linhas do que escrevo.
Sei que o impacto que ele tem em mim deve-se a um dia com duas grandes coincidências. Alguns 5 (4? 3? não me lembro) anos atrás estava eu andando nas ruas de um bairro onde morei quando duas coisas me surpreenderam: uma nota de 50 reais no chão, no asfalto de uma rua deserta. Alguns minutos depois, o poema declamado por Vinícius no som chiado da gravação de LP que tocava no meu aparelhinho de MP3. Duas situações completamente desconexas. E não, não me lembro o que eu estava fazendo no bairro, nem com quem me encontrei, nem porque nem quando. Mas lembro do poema.
A impressão que ele tem sobre mim é tão grande que mesmo anos depois, preciso desligar a música ambiente para poder escrever sobre ele. E tecendo tantas loas já nos primeiros três parágrados, já me convenço de que nada do que eu escrever sobre a obra daqui pra baixo vai ser suficiente para mostrar ao meu um leitor o porquê desse fascínio.
Não sei se é a identificação da pátria como frágil, como filha, e não como mãe; como uma entidade a ser cuidada. Pode ser a indefinição: aquela que liquefaz a mágoa em lágrimas amargas. Pode ser a incapacidade de mudar as suas (minhas?) cores feias, pobres. Pode ser a inadequação do amor: eu não nasci de você. Eu invisível, eu adeus, eu sem deus – mas eu com amor. Pode ser a fidelidade inconsequente, a presença constante, mesmo quando se está longe.
Confesso que não entendo a 6ª estrofe, mas pouco importa. Consigo me ver numa terra em que nunca fui, imerso no céu e esperando pela constelação que não aparecerá. E mesmo não aparecendo, e impossibilitado de dizer “aguarda”, a esperança ainda está posta, do dia em que o contato será possível – nem que pra isso seja necessário despir-se de tudo e rasgar o conhecimento e a sabedoria. Rasgar-se-ão alguns corações no meio do caminho.
Tudo isso para encontrar a desolação de caminhos, a terra sedenta ao lado do rio. Tudo isso porque com todos os seus defeitos, existe ali um bem – e um futuro – que não tem nome, não tem continuidade, não tem educação. É uma ilha. A minha ilha, onde eu sou dono e visitante ao mesmo tempo.
esse texto não tem final.
* Num backup desastrado, perdi a tal gravação que há anos tento encontrar. Mas juro que ao ler os versos, sou capaz de ouvir a voz do poeta, em todos os tons e semitons declamados – que não tenho coragem de imitar.