An anthropological introduction to YouTube
Published on novembro 21st, 2009 by admin. Filed under comunicação | Nenhum ComentárioVídeo do Prof. Dr. Michael Wesch, sobre o seu curso de Etnografia Digital na Kansas State University:
Vídeo do Prof. Dr. Michael Wesch, sobre o seu curso de Etnografia Digital na Kansas State University:
Com o risco de incorrer em exagero, acho tudo parecido com tudo. O sujeito que diz besteiras a uma moça que caminha na rua, o playboy que agarra a garota na balada, o cara que se esfrega na mulher do trem, o marginal que insulta a moça da Uniban. Tudo faz parte de um mesmo contínuo de desrespeito à mulher. Ele começa com o chato do bar, que insiste na cantada apesar de meia dúzia de nãos, e termina… Sabe-se lá onde termina.
Claro, todo comportamento social tem uma justificativa ideológica. Neste caso, a justificativa é a de que as mulheres gostam. Se você perguntar, vai ouvir dos conquistadores que, lá no fundo, elas querem ser assediadas, agarradas, elogiadas com bastante pimenta. Faz bem para o ego delas, explicam. Claro, por trás de todo grosseirão há sempre um especialista na alma feminina. Mas eu suspeito que eles estejam errados.
Retirado de: Cantadas ofendem – Ivan Martins
Não consigo ficar confortável. A sensação é que de algum lugar, vai sair alguém gritando barbaridades para mim. E não importa que não sou mais adolescente, que sou adulta, que já dei bordoada em cara sem noção, que sei gritar por socorro, que sou ativista e que cresci para ser mulher com orgulho e diante de tudo. O medo ainda me impede de sair na rua usando um vestidinho florido, desses que fazem pensar em filmes italianos e crianças.
Por isso eu sei que um crime contra uma mulher é um crime contra todas as mulheres.
Retirado de: Senhor piedade, senhor piedade… pra essa gente careta e covarde
Ambos são trechos de ótimos textos que li ultimamente sobre o episódio Uniban. Em geral, me supreendeu a quantidade de textos ruins, insensíveis ou simplesmente mal-direcionados, que sempre – invariavelmente no caso da imprensa – acabavam por discutir o tamanho da saia da menina, como se esse fosse um fator de alguma relevância.
Esse episódio me deixou um tanto perplexo; temos muito ainda que progredir como sociedade pra que coisas assim deixem de acontecer.
De resto, como bem disse o Juliano Spyer, fica uma lição em tempo real de como não gerenciar uma crise de imagem em tempos de internet.
comentário postado no blog da Iana, num post sobre a falta de educação dos Milaneses
Construa o muro de novo
Quando estive na Europa, cada lugar me chamava a atenção por um motivo diferente, claro. Mas sem sombra de dúvida, os lugares que mais me intrigaram, que mais me atraíram os que eu mais quero voltar foram os imperfeitos. A Alemanha, com o muro ainda pichado e palavrões nas paredes,
No pé do muro tem uma plaquinha azul e branca escrito "Denkmal". Sim, aquilo é um monumento.
com inscrições como “baut die mauer wieder – construa o muro de novo” em frente a um museu nos escombros do prédio de comando do III Reich chamado “topografia do terror”. Juro que me senti “em casa” quando desci na estação de trem em Praga, suja, fedida, pichada em russo; ali eu tive orgulho da rodoviária de Belo Horizonte – mesma sensação na estação de Budapeste e no subúrbio de Zagreb.
Lugares imperfeitos tem “cheiro” de casa; de lugar onde moram seres humanos de verdade – não a família modelo que todo mundo quer que acreditemos que os europeus são; maldito complexo de cachorro esquecido na mudança. Claro que isso não é desculpa pra grosserias, uma vez que educação e gentileza são qualidades humanas, não étnicas ou urbanísticas. Infelizmente, em alguns lugares simplesmente não conseguimos nos encontrar com as pessoas que dariam vida à cidade em que vivem – aconteceu isso comigo em Buenos Aires, de onde tenho poucas boas lembranças, apesar de tudo.
Tive a mesma experiência que tanta gente em um supermercado na alemanha – tentar de todas as formas ser compreendido, rir, e enfrentar a cara feia do outro lado, como quem diz “é sua obrigação falar alemão”. Mas foi totalmente diferente quando cheguei em Bratislava e, na mesma situação, em uma banca de revistas, a moça que me vendeu os bilhetes de Tram ria tanto junto comigo que ficou marcada como um dos pontos altos da viagem – o idioma da conversa deve ter sido algo como Portuslovaco.
Acho uma pena que o meu olhar destreinado daquela viagem, nos idos de abril de 2007, não tenha captado esses momentos com a minha câmera, ou com mais atenção. Tenho centenas de fotos de monumentos e parques lindos de ver, mas a sensação de humanidade, tanto a boa como a ruim, ficou só na minha memória e em 3 ou 4 fotos…
É o subúrbio de Zagreb, mas poderia ser o de Belo Horizonte

O Governo abriu, na última sexta-feira, a discussão pública em torno do Marco Regulatório Civil, basicamente um documento contendo os limites de atuação do governo em relação aos assuntos da internet. Muito interessante como inicativa de crowdsourcing aplicada à legislação. Não é a primeira vez, mas é provavelmente a maior iniciativa governamental até hoje para discutir a legislação brasileira. Clicando na figura você chega no site oficial (http://culturadigital.br/marcocivil/) Abaixo o texto introdutório:
Sejam bem-vindos.
Este espaço hospedará, pelos próximos meses, o processo colaborativo de discussão e formulação de um marco civil para a Internet brasileira.
A iniciativa parte do pressuposto que a participação popular pode enriquecer o processo de construção de nossas leis. O conhecimento coletivo e voluntário pode – e deve – ser usado para aperfeiçoar a elaboração legislativa em nosso país. Nosso processo legislativo já possui alguns mecanismos de participação popular, como as audiências e consultas públicas. É hora, no entanto, de dar um passo adiante. E a Internet é a ferramenta para permitir que a participação esteja ao alcance de cada cidadão.
Outra premissa do projeto consiste em reconhecer que a legislação brasileira enfrenta lacunas com relação à Internet, com uma série de questões ainda não reguladas. Essas lacunas geram incerteza, com prejuízo para direitos fundamentais dos indivíduos, para a inovação e para a segurança jurídica.
Por outro lado, compreender a rede mundial como um espaço transnacional de comunicação e compartilhamento de informações, fundado em protocolos abertos e com governança mundial, é essencial para identificar limites necessários a essa regulamentação.
A intenção do marco civil a ser proposto não é restringir o acesso ou uso da Internet. Tampouco se pretende normatizar localmente aquilo que depende de harmonização internacional para funcionar. O que se espera, com o marco civil a ser elaborado colaborativamente, é:
(i) definir diretrizes claras para a ação governamental – tanto no que diz respeito à regulação quanto no que tange a formulação de políticas públicas para a Internet;
(ii) reconhecer, proteger e regulamentar direitos fundamentais dos indivíduos, bem como estabelecer com clareza a delimitação da responsabilidade civil daqueles que atuam na rede como prestadores de serviço; e
(iii) estabelecer balizas jurídicas que permitam ao judiciário atuar com precisão e de forma fundamentada para a resolução de conflitos envolvendo a utilização da rede. Alguns temas, como direitos autorais, comunicação de massa e questões criminais, estarão fora deste debate, por já contarem com discussões estruturadas.
Este projeto é coordenado pela Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, em parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito do Rio de Janeiro, da Fundação Getulio Vargas – DIREITO RIO. Conta também com o apoio e suporte técnico do Ministério da Cultura e da Rede Nacional de Pesquisa – RNP, mantenedores do portal http://www.culturadigital.br.

“Meu medo desapareceu. Senti, apenas, aquela profunda tristeza das despedidas. Pensei nos meus filhos e rezei pensando neles. Ou morri pensando neles, enquanto tudo se repetia exatamente igual à vez anterior: eu caminhei, eles dispararam, senti as balas e a morte. Agora, porém, para terminar com a farsa, em vez de discutirem, eles gargalharam. Em algumas horas, eu fora submetido a dois fuzilamentos simulados.
Simulados? Agora, mais de 20 anos depois, sei que tudo foi uma simulação porque estou vivo, mas, naquela madrugada de 15 de julho de 1977, eu fui executado em terra alheia e morri.” (Flávio Tavares, Memórias do Esquecimento. Ed. Record.)
Essa semana foi repleta de histórias que me deixaram sem ar. A história da Uniban, a história da menina estuprada por 20 garotos e dezenas de testemunhas inertes nos EUA, e as histórias contadas no livro “Memórias do Esquecimento – os segredos dos porões da ditadura”, do jornalista Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos exilados, libertados em troca do Embaixador americano Charles Elbrick em 1969. Leitura recomendada para quem quiser uma visão de dentro, do período ditatorial. Tavares era colunista político, conhecia a causa pela qual lutava, diferente de outros jovens tão intrépidos quanto, que ele mesmo ilustra no livro.
Esses relatos me fizeram pensar, ainda sem nenhuma conclusão, sobre a relação delicada das pessoas com a violência; tanto com a violência sofrida como com a perpetrada. Uma namorada costumava dizer que todos somos assassinos em potencial, tudo depende das circunstâncias – o maniqueísmo é simples, e como tal, muito perigoso.
Em 1985 o exército brasileiro preparou um livro para explicar sua versão da história, era uma resposta à publicação de “Brasil, nunca mais“, organizado pela CNBB. Ficou conhecido como “Projeto Orvil” ou “O Livro Negro do Terrorismo no Brasil” e nunca foi publicado – consta que o presidente Sarney proibiu. Mas existe uma versão que circula na internet com cerca de 1.000 páginas datilografadas scaneadas, com os detalhes contados pelos militares. Assim como ele, existe um livro do Coronel Brilhante Ustra – 1º oficial a ser declarado torturador pela justiça brasileira – chamado “A Verdade Sufocada” este publicado e já na 5ª edição. Figura nas livrarias ao lado de livros como o de Tavares, a trilogia de Elio Gaspari e os dois tomos de Thomas Skidmore – viva a liberdade editorial.
Tem sido muito interessante mergulhar na história brasileira – como um retorno às aulas de história. Agora, sem a pressão do colégio e do vestibular e sem a imaturidade dos meus 15 anos, eu posso tentar começar a vislumbrar de fato o que aconteceram nos anos antes da queda do muro em 1989 (que é minha memória política mais recente). Antes de “Memórias do esquecimento”, este ano já li o excelente “1930″ e em épocas passadas tentei ler “A Ditadura Envergonhada” do Gaspari e “Brasil: de Getúlio a Castrelo” de Skidmore, ambos sem sucesso.
Tropeço nas minhas leituras e sinto que nunca vou conseguir entender de fato o que se passou; era preciso estar lá para viver a violência, a repressão, a falta de liberdade. Mas a história tem dessas coisas e tenho certeza que meus filhos não vão compreender completamente os intrincados cenários atuais – preciso aprender a não me frustrar com isso.
Mais do que isso, preciso aprender a observar e contar a minha história e os seus acontecimentos, o seu preconceito, a sua forma de violência, de repressão e de omissão, sem mocinhos ou bandidos, só com os seres humanos e seus defeitos diversificados.
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