Fim de ano é época de clichês, eu sei. Mas se tem uma coisa que aprendi em 2009 é que fugir dos clichês nem sempre é a melhor escolha.
Desde que comecei esse blog, em 2006, só fiz um post de fim de ano, em Janeiro de 2007, em que eu dizia que 2006 foi o ano da ressaca . Mal sabia eu…
Seguindo em frente, talvez seja mesmo o caso de dar um nome para cada ano da minha vida adulta, por assim dizer. Se 2006 foi o ano da ressaca, 2007 deve ter sido o ano da liberdade, 2008 o ano da fuga e 2009 o ano das pendências. Sim, pendências – todas as que eu não tinha em 2006 quando era apenas um rapazinho em franca ascensão e cheio de esperanças, todas as que eu juntei em 2007 com o mundo novo que se abriu quando comecei a conhecer os viajantes que mudaram minha vida e com a partida da Ana Luiza, quando percebi que a liberdade vale muito pouco quando o mundo ainda está lá fora. E todas as pendências de 2008, todas as que ficaram escondidas nos longos períodos de silêncio, nos longos meses de angústia, todas as que eu escondi atrás das longas horas de trabalho e todas as que eu afoguei nos longos litros de álcool.
2009 começou em 28 de fevereiro, com um misto de apartamento novo e repartição pública: uma sala vazia, com pilhas de pendências, e nenhuma vontade; mas está terminando surpreendentemente limpo, surpreendentemente leve, surpreendentemente gostoso. Aprendi a viver solitário. Com a solidão a dois, com a solidão em bando, e com a solitude, um estado calmo, leve, acompanhado quando sim, e sobretudo embalado por um sentimento de auto-soberania. Se isso não é a idade chegando, confesso, não sei o que é.
Menos gente, menos álcool, menos barulho, menos correria; muita ansiedade, muitas incertezas e enormes inseguranças, todas devidamente tratadas com doses cavalares de trabalho. 2009 foi o ano em que eu aprendi o significado de “let go and move on” – e comecei a aplicá-lo nas pendências que me prendiam a todos os outros anos passados.
O ano se vai deixando alguns poucos e bons novos amigos, algumas diferentes e excitantes oportunidades profissionais, alguns novos e diferentes sentimentos, outros novos e inquietantes questionamentos, e uma pequena certeza: a vida é tosca, sim. Mas talvez por isso seja tão divertida.
Vou refrear meu desejo de pré-rotular 2010, de pensar qual é a grande mudança da vez, que sim, com certeza acontecerá. Mas tudo que sei é que pela primeira vez em 3 anos, um ano vai começar sem pendências. Acho que não podia querer mais.
Nunca é demais reforçar: como forma de preservar a idoneidade e independência das instituições para as quais presto serviços, ressalto que todas as opiniões expostas nesse blog e na entrevista são de minha única autoria e responsabilidade, não representando a posição de nenhuma das instituições envolvidas, direta ou indiretamente.
As campanhas eleitorais americanas costumam ser mais divertidas que as nossas. Pelo menos lá eles gostam bem mais do estilo “agressive” (não traduzir por agressivo), como no célebre slogan criado pela campanha de Bill Clinton em 1992: “It´s the economy, stupid!”
Repetido à exaustão, o slogan é uma forma de dizer: concentre-se no que é importante, ao invés de perder tempo com causas inúteis. Em 1991 era Clinton contra a primeira guerra do Golfo; em 2008 era a imprensa obamista contra John McCain – e no #diadorp 2009 eu resolvi usar a mesma tática contra o discurso vazio de valorização da profissão.
Eu já tinha pensado em escrever sobre isso antes, mas acabei rascunhando um texto em 30min na noite do dia 2, tentando juntar em um lugar só tudo que eu pensava sobre essas coisas. Algumas ficaram bem explicadas, outras precisaram de debate nos comentários, e uma característica específica e muito importante eu guardei pra explicar nesse post, justamente a questão central da forma do discurso.
Em tempos de mídias sociais, meu textinho acabou rodando bastante por aí e alçou as visitas desse humilde blog a muitas vezes o seu tráfego normal.
Em tempos de eleições 2010 todo o mercado de comunicação está voltado para as possibilidades que a internet trará para as campanhas. Acontece que muita gente desse mercado está comprando mídias sociais, estudando e aprendendo a fazer descentralização de conteúdos, coletar microdoações, criar ações que viralizem rapidamente e todas as outras ferramentas que deram certo e nisso está achando que automaticamente vai ganhar um Obama de brinde; mas infelizmente isso não vai acontecer.
O que fez todo o case das eleições americanas no ano passado não foram as mídias sociais, não foi a hashtag #yeswecan, não foi o blog nem o youtube, mas a estratégia política por trás; o “change movement” tem muito mais a ver com novas formas de usar as tecnologias mais primitivas: discurso e posicionamento.
Durante sua campanha, Obama soltou uma frase sobre a crise econômica que explica bem a minha posição nesse debate:
“The notion that we would want to brush that aside and engage in the usual political shenanigans and smear tactics that have come to characterize too many political campaigns is not what the American people are looking for.”
Parafraseando em bom português: deixar de lado as questões centrais de competitividade, preparação, formação e competência e continuar batendo na mesma tecla de “valorização” de 40 anos atrás e continuar tolerando o denuncismo barato incentivado pelos CONRERPs para multar profissionais por “exercício ilegal da profissão” é o discurso fácil e que funcionou dentro da categoria ao longo do tempo, mas não é o que o mercado está procurando. Tanto não é que não está funcionando.
Em uma economia capitalista, com todos os seus defeitos e qualidades, o mercado é soberano; e soberanos são egoístas: não costumam se curvar para pedidos que não os beneficiem diretamente. E talvez seja essa a grande lição de Obama para os Relações Públicas brasileiros. Se o seu discurso não funciona, a culpa não é da audiência; é sua estratégia que está errada.
Quando os nossos profissionais deixarem de apontar tanto para o próprio umbigo dizendo “olhe pra mim, eu sou Relações Públicas, eu sou importante, sou um profissional estratégico” e começarem a procurar no mercado a resposta para a pergunta “por que não somos valorizados?”, talvez a resposta e a mudança de comportamento sejam muito mais visíveis. Quando começarmos a nos perguntar por que a secretária tem mais acesso a informações estratégicas, por que a área de comunicação está nas mãos de um engenheiro ou por que o budget vem caindo nos últimos anos, talvez as respostas sejam muito mais elucidativas.
Como eu disse no post anterior, empresas não gostam mesmo de RPs, elas gostam de dinheiro. E se a secretária ou o engenheiro é que estão fazendo esse dinheiro, é porque eles tem alguma característica que você ainda não aprendeu.
Ao invés de fazer discursos e campanhas pela valorização da profissão, por que não aprendemos a fazer discursos que emocionem as pessoas e os mercados porque tocam nos pontos que interessam a eles muito mais do que a nós? Fazendo assim, o twitter, os blogs, o youtube e todo o resto simplesmente seguirão a linha. Aqui embaixo tem um belo estudo de caso:
Edit: esse outro discurso explica bem detalhadamente e extremamente bem o que eu quis dizer. Serão 37min muito bem gastos pra quem se aventurar:
Só fui me lembrar agora, às 23h15 que hoje, dia 2 de dezembro era dia das Relações Públicas e tinha blogagem coletiva, pq eu vi isso em algum lugar. Acho que talvez no Prezados Colaboradores, no Comunicação com funcionário, ou no Blog do Gaulia, mas não estou certo. Foi graças ao twitter de @danielavalverde, curitibana que tenho acompanhado desde sei lá quando, coisa dessas redes que criam interações mas em geral não criam histórias.
Maldita mania essa de comemorar dias específicos pra coisas desimportantes.
Tenho uma carteirinha do CONRERP-MG com o registro número 2172, o que me credencia a me identificar como profissional de Relações Públicas, ao passo que a grande maioria das pessoas que um dia me ouvir pronunciar essa frase me perguntará: e daí?
Pode ser pelo fato de que eu considero o trabalho da Margarida Kunsch um tanto overrated, pode ser porque não gosto de defesas vazias como essa do O Cappuccino:
Então, se não mudarmos a forma como o mercado brasileiro enxerga os profissionais de Relações Públicas estaremos fadados a sermos substituídos por profissionais de outras áreas da comunicação. Se não conquistarmos nosso espaço, nunca conseguiremos ocupar a posição estratégica que o profissional de RP tem (ou deveria ter, segundo nossos professores) em uma empresa. E aí fica beeem difícil Ser RP.
Relações Públicas precisa ter voz ativa no contexto do mercado e das organizações. E voz ativa, meus caros RPs, só teremos com informação, conhecimento e atitude. Por tudo isso, convidamos, em nome daqueles que partilharam esta idéia, todos os profissionais, estudantes e simpatizantes das Relações Públicas e da Comunicação Organizacional para, de modo conjunto e compartilhado, concentrarmos informação e conhecimento sobre a nossa profissão no dia 02 de dezembro, construindo uma verdadeira agenda positiva sobre o termo RP nas redes sociais.
mas pode ser simplesmente porque eu não aceito conselhos de comunicação de alguém que mantém uma logo tão bonita, eficiente, de fácil reprodução e sem problemas de aplicação como a do Mundo RP.* Pode ser pelo fato de todas as grandes conquistas do CONRERP tem pra mim, hoje, a mesma importância de uma nova cafeteira.
Mas o fato é que não é de hoje que não simpatizo com a “causa” dos RPs. Não acho que RPs precisem de um dia, nem acho que campanhas de valorização da profissão** tem qualquer efeito válido no mundo real. Talvez eu tenha sido mal influenciado na faculdade; talvez tenha nutrido desde sempre um senso crítico menos refinado, ou talvez seja meio lelé mesmo, mas sinceramente, eu acho que ser um Relações Públicas não é lá nenhuma vantagem competitiva. Ter um diploma de Relações Públicas tem hoje o mesmo peso profissional e poder de alçar sua carreira a níveis mais altos ao de ter um RG com o nome “Genivaldo Silva”.***
Mas ao contrário do que o CONFERP e os ativistas de RP advogam, isso não é culpa das empresas, aquelas entidades malvadas que não nos reconhecem como profissionais estrategistas de comunicação organizacional, não nos dão acesso aos círculos de poder e decisão estratégica, não nos destinam verbas suficientes, não nos deixam agir livremente e sem pedir benção por aí e, por fim, não nos dão os parabéns no nosso dia.
Não, queridos amigos, isso é culpa da qualidade medíocre de 90% dos profissionais de Relações Públicas que se jogam no mercado todos os anos.
Há 2 anos eu mudei de lado do balcão. Deixei de ser empresa e passei a ser fornecedor de serviços de comunicação. E passei a lidar com as pessoas que tomam as decisões estratégicas que os CONRERPS reivindicam como únicas dos portadores do diploma: Administradores, engenheiros, publicitários, economistas, jornalistas, secretárias e até alguns RPs.
E foi aí que confirmei a minha percepção, gente que gosta de resolver problemas vem em todos os tipos e formatos – e diplomas (ou falta deles). E não, empresas não gostam de Relações Públicas.
Empresas gostam de dinheiro, de lucro, e de gente que resolva problemas que virem dinheiro. A formação dessas pessoas vem em segundo lugar, e aquele nomezinho escrito no campo “Cargo” é puramente uma decisão técnica da área de Recursos Humanos, que em geral, pouco ou nada tem a ver com a sua auto-estima. E nesse sentido, as empresas tem razão em não gostar de RPs, pelo menos teriam razão em não gostar de muitos dos RPs que eu conheci nesses 8 anos de mercado, os bem empregados, os mal empregados e os desempregados (de longe o grupo que mais reclama). Meu questionamento, assim como o dos bons gestores é:
“Se você precisa ser reconhecido pelo que escrevem no seu contrato e não pelos resultados que entrega, acho que tem alguma coisa errada aí.”
Então, hoje, dia 2 de dezembro, é dia RP. E daí? E daí nada.
A partir de amanhã, colega, deixe de #mimimi e vire um resolvedor de problemas. O mercado agradece, sua carreira agradece, e as suas chances de chegar perto da direção da empresa aumentarão o suficiente pra você não se importar com os nomes pelos quais as pessoas te chamam, #ficaadica.
Antes de ir, deixo com vocês uma singela homenagem aos RPs desse braziuzão, uma sugestão de hino à causa da classe:
* Níveis críticos de ironia foram atingidos nessa passagem
** Você jura, mesmo, que quer me vender uma campanha de comunicação usando ESSE LAYOUT ?
*** Perdão aos srs. Genivaldos – eu não quis compará-los aos RPs.
Com o risco de incorrer em exagero, acho tudo parecido com tudo. O sujeito que diz besteiras a uma moça que caminha na rua, o playboy que agarra a garota na balada, o cara que se esfrega na mulher do trem, o marginal que insulta a moça da Uniban. Tudo faz parte de um mesmo contínuo de desrespeito à mulher. Ele começa com o chato do bar, que insiste na cantada apesar de meia dúzia de nãos, e termina… Sabe-se lá onde termina.
Claro, todo comportamento social tem uma justificativa ideológica. Neste caso, a justificativa é a de que as mulheres gostam. Se você perguntar, vai ouvir dos conquistadores que, lá no fundo, elas querem ser assediadas, agarradas, elogiadas com bastante pimenta. Faz bem para o ego delas, explicam. Claro, por trás de todo grosseirão há sempre um especialista na alma feminina. Mas eu suspeito que eles estejam errados.
Não consigo ficar confortável. A sensação é que de algum lugar, vai sair alguém gritando barbaridades para mim. E não importa que não sou mais adolescente, que sou adulta, que já dei bordoada em cara sem noção, que sei gritar por socorro, que sou ativista e que cresci para ser mulher com orgulho e diante de tudo. O medo ainda me impede de sair na rua usando um vestidinho florido, desses que fazem pensar em filmes italianos e crianças.
Por isso eu sei que um crime contra uma mulher é um crime contra todas as mulheres.
Ambos são trechos de ótimos textos que li ultimamente sobre o episódio Uniban. Em geral, me supreendeu a quantidade de textos ruins, insensíveis ou simplesmente mal-direcionados, que sempre – invariavelmente no caso da imprensa – acabavam por discutir o tamanho da saia da menina, como se esse fosse um fator de alguma relevância.
Esse episódio me deixou um tanto perplexo; temos muito ainda que progredir como sociedade pra que coisas assim deixem de acontecer.
Quando estive na Europa, cada lugar me chamava a atenção por um motivo diferente, claro. Mas sem sombra de dúvida, os lugares que mais me intrigaram, que mais me atraíram os que eu mais quero voltar foram os imperfeitos. A Alemanha, com o muro ainda pichado e palavrões nas paredes,
No pé do muro tem uma plaquinha azul e branca escrito "Denkmal". Sim, aquilo é um monumento.
com inscrições como “baut die mauer wieder – construa o muro de novo” em frente a um museu nos escombros do prédio de comando do III Reich chamado “topografia do terror”. Juro que me senti “em casa” quando desci na estação de trem em Praga, suja, fedida, pichada em russo; ali eu tive orgulho da rodoviária de Belo Horizonte – mesma sensação na estação de Budapeste e no subúrbio de Zagreb.
Lugares imperfeitos tem “cheiro” de casa; de lugar onde moram seres humanos de verdade – não a família modelo que todo mundo quer que acreditemos que os europeus são; maldito complexo de cachorro esquecido na mudança. Claro que isso não é desculpa pra grosserias, uma vez que educação e gentileza são qualidades humanas, não étnicas ou urbanísticas. Infelizmente, em alguns lugares simplesmente não conseguimos nos encontrar com as pessoas que dariam vida à cidade em que vivem – aconteceu isso comigo em Buenos Aires, de onde tenho poucas boas lembranças, apesar de tudo.
Tive a mesma experiência que tanta gente em um supermercado na alemanha – tentar de todas as formas ser compreendido, rir, e enfrentar a cara feia do outro lado, como quem diz “é sua obrigação falar alemão”. Mas foi totalmente diferente quando cheguei em Bratislava e, na mesma situação, em uma banca de revistas, a moça que me vendeu os bilhetes de Tram ria tanto junto comigo que ficou marcada como um dos pontos altos da viagem – o idioma da conversa deve ter sido algo como Portuslovaco.
Acho uma pena que o meu olhar destreinado daquela viagem, nos idos de abril de 2007, não tenha captado esses momentos com a minha câmera, ou com mais atenção. Tenho centenas de fotos de monumentos e parques lindos de ver, mas a sensação de humanidade, tanto a boa como a ruim, ficou só na minha memória e em 3 ou 4 fotos…
É o subúrbio de Zagreb, mas poderia ser o de Belo Horizonte
O Governo abriu, na última sexta-feira, a discussão pública em torno do Marco Regulatório Civil, basicamente um documento contendo os limites de atuação do governo em relação aos assuntos da internet. Muito interessante como inicativa de crowdsourcing aplicada à legislação. Não é a primeira vez, mas é provavelmente a maior iniciativa governamental até hoje para discutir a legislação brasileira. Clicando na figura você chega no site oficial (http://culturadigital.br/marcocivil/) Abaixo o texto introdutório:
Sejam bem-vindos.
Este espaço hospedará, pelos próximos meses, o processo colaborativo de discussão e formulação de um marco civil para a Internet brasileira.
A iniciativa parte do pressuposto que a participação popular pode enriquecer o processo de construção de nossas leis. O conhecimento coletivo e voluntário pode – e deve – ser usado para aperfeiçoar a elaboração legislativa em nosso país. Nosso processo legislativo já possui alguns mecanismos de participação popular, como as audiências e consultas públicas. É hora, no entanto, de dar um passo adiante. E a Internet é a ferramenta para permitir que a participação esteja ao alcance de cada cidadão.
Outra premissa do projeto consiste em reconhecer que a legislação brasileira enfrenta lacunas com relação à Internet, com uma série de questões ainda não reguladas. Essas lacunas geram incerteza, com prejuízo para direitos fundamentais dos indivíduos, para a inovação e para a segurança jurídica.
Por outro lado, compreender a rede mundial como um espaço transnacional de comunicação e compartilhamento de informações, fundado em protocolos abertos e com governança mundial, é essencial para identificar limites necessários a essa regulamentação.
A intenção do marco civil a ser proposto não é restringir o acesso ou uso da Internet. Tampouco se pretende normatizar localmente aquilo que depende de harmonização internacional para funcionar. O que se espera, com o marco civil a ser elaborado colaborativamente, é:
(i) definir diretrizes claras para a ação governamental – tanto no que diz respeito à regulação quanto no que tange a formulação de políticas públicas para a Internet;
(ii) reconhecer, proteger e regulamentar direitos fundamentais dos indivíduos, bem como estabelecer com clareza a delimitação da responsabilidade civil daqueles que atuam na rede como prestadores de serviço; e
(iii) estabelecer balizas jurídicas que permitam ao judiciário atuar com precisão e de forma fundamentada para a resolução de conflitos envolvendo a utilização da rede. Alguns temas, como direitos autorais, comunicação de massa e questões criminais, estarão fora deste debate, por já contarem com discussões estruturadas.
Este projeto é coordenado pela Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, em parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito do Rio de Janeiro, da Fundação Getulio Vargas – DIREITO RIO. Conta também com o apoio e suporte técnico do Ministério da Cultura e da Rede Nacional de Pesquisa – RNP, mantenedores do portal http://www.culturadigital.br.
“Meu medo desapareceu. Senti, apenas, aquela profunda tristeza das despedidas. Pensei nos meus filhos e rezei pensando neles. Ou morri pensando neles, enquanto tudo se repetia exatamente igual à vez anterior: eu caminhei, eles dispararam, senti as balas e a morte. Agora, porém, para terminar com a farsa, em vez de discutirem, eles gargalharam. Em algumas horas, eu fora submetido a dois fuzilamentos simulados.
Simulados? Agora, mais de 20 anos depois, sei que tudo foi uma simulação porque estou vivo, mas, naquela madrugada de 15 de julho de 1977, eu fui executado em terra alheia e morri.” (Flávio Tavares, Memórias do Esquecimento. Ed. Record.)
Essa semana foi repleta de histórias que me deixaram sem ar. A história da Uniban, a história da menina estuprada por 20 garotos e dezenas de testemunhas inertes nos EUA, e as histórias contadas no livro “Memórias do Esquecimento – os segredos dos porões da ditadura”, do jornalista Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos exilados, libertados em troca do Embaixador americano Charles Elbrick em 1969. Leitura recomendada para quem quiser uma visão de dentro, do período ditatorial. Tavares era colunista político, conhecia a causa pela qual lutava, diferente de outros jovens tão intrépidos quanto, que ele mesmo ilustra no livro.
Esses relatos me fizeram pensar, ainda sem nenhuma conclusão, sobre a relação delicada das pessoas com a violência; tanto com a violência sofrida como com a perpetrada. Uma namorada costumava dizer que todos somos assassinos em potencial, tudo depende das circunstâncias – o maniqueísmo é simples, e como tal, muito perigoso.
Em 1985 o exército brasileiro preparou um livro para explicar sua versão da história, era uma resposta à publicação de “Brasil, nunca mais“, organizado pela CNBB. Ficou conhecido como “Projeto Orvil” ou “O Livro Negro do Terrorismo no Brasil” e nunca foi publicado – consta que o presidente Sarney proibiu. Mas existe uma versão que circula na internet com cerca de 1.000 páginas datilografadas scaneadas, com os detalhes contados pelos militares. Assim como ele, existe um livro do Coronel Brilhante Ustra – 1º oficial a ser declarado torturador pela justiça brasileira – chamado “A Verdade Sufocada” este publicado e já na 5ª edição. Figura nas livrarias ao lado de livros como o de Tavares, a trilogia de Elio Gaspari e os dois tomos de Thomas Skidmore – viva a liberdade editorial.
Tem sido muito interessante mergulhar na história brasileira – como um retorno às aulas de história. Agora, sem a pressão do colégio e do vestibular e sem a imaturidade dos meus 15 anos, eu posso tentar começar a vislumbrar de fato o que aconteceram nos anos antes da queda do muro em 1989 (que é minha memória política mais recente). Antes de “Memórias do esquecimento”, este ano já li o excelente “1930″ e em épocas passadas tentei ler “A Ditadura Envergonhada” do Gaspari e “Brasil: de Getúlio a Castrelo” de Skidmore, ambos sem sucesso.
Tropeço nas minhas leituras e sinto que nunca vou conseguir entender de fato o que se passou; era preciso estar lá para viver a violência, a repressão, a falta de liberdade. Mas a história tem dessas coisas e tenho certeza que meus filhos não vão compreender completamente os intrincados cenários atuais – preciso aprender a não me frustrar com isso.
Mais do que isso, preciso aprender a observar e contar a minha história e os seus acontecimentos, o seu preconceito, a sua forma de violência, de repressão e de omissão, sem mocinhos ou bandidos, só com os seres humanos e seus defeitos diversificados.