Marco Civil – uma discussão pra ficar de olho

O Governo abriu, na última sexta-feira, a discussão pública em torno do Marco Regulatório Civil, basicamente um documento contendo os limites de atuação do governo em relação aos assuntos da internet. Muito interessante como inicativa de crowdsourcing aplicada à legislação. Não é a primeira vez, mas é provavelmente a maior iniciativa governamental até hoje para discutir a legislação brasileira. Clicando na figura você chega no site oficial (http://culturadigital.br/marcocivil/) Abaixo o texto introdutório:

Sejam bem-vindos.

Este espaço hospedará, pelos próximos meses, o processo colaborativo de discussão e formulação de um marco civil para a Internet brasileira.

A iniciativa parte do pressuposto que a participação popular pode enriquecer o processo de construção de nossas leis. O conhecimento coletivo e voluntário pode – e deve – ser usado para aperfeiçoar a elaboração legislativa em nosso país. Nosso processo legislativo já possui alguns mecanismos de participação popular, como as audiências e consultas públicas. É hora, no entanto, de dar um passo adiante. E a Internet é a ferramenta para permitir que a participação esteja ao alcance de cada cidadão.

Outra premissa do projeto consiste em reconhecer que a legislação brasileira enfrenta lacunas com relação à Internet, com uma série de questões ainda não reguladas. Essas lacunas geram incerteza, com prejuízo para direitos fundamentais dos indivíduos, para a inovação e para a segurança jurídica.

Por outro lado, compreender a rede mundial como um espaço transnacional de comunicação e compartilhamento de informações, fundado em protocolos abertos e com governança mundial, é essencial para identificar limites necessários a essa regulamentação.

A intenção do marco civil a ser proposto não é restringir o acesso ou uso da Internet. Tampouco se pretende normatizar localmente aquilo que depende de harmonização internacional para funcionar. O que se espera, com o marco civil a ser elaborado colaborativamente, é:

(i) definir diretrizes claras para a ação governamental – tanto no que diz respeito à regulação quanto no que tange a formulação de políticas públicas para a Internet;

(ii) reconhecer, proteger e regulamentar direitos fundamentais dos indivíduos, bem como estabelecer com clareza a delimitação da responsabilidade civil daqueles que atuam na rede como prestadores de serviço; e

(iii) estabelecer balizas jurídicas que permitam ao judiciário atuar com precisão e de forma fundamentada para a resolução de conflitos envolvendo a utilização da rede. Alguns temas, como direitos autorais, comunicação de massa e questões criminais, estarão fora deste debate, por já contarem com discussões estruturadas.

Este projeto é coordenado pela Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, em parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito do Rio de Janeiro, da Fundação Getulio Vargas – DIREITO RIO. Conta também com o apoio e suporte técnico do Ministério da Cultura e da Rede Nacional de Pesquisa – RNP, mantenedores do portal http://www.culturadigital.br.

o futuro das escolas de jornalismo

Míriam Leitão fez uma leitura clara e concisa da situação: Pós-graduação e cursos melhores em comunicação

Eu aproveito só pra acrescentar três coisas ao que tinha escrito antes.

1. Se a Fenaj quiser realmente fazer um bem ao país, vai seguir o exemplo da Ordem dos Advogados do Brasil (a quem apela toda vez pra se posicionar sobre o assunto) e implementar uma avaliação muito mais completa do que “com diploma, sim, sem diploma, não”, pra determinar que pode ostentar seu registro de Jornalista Profissional. Com um exame teórico/prático/contínuo bem estruturado, a rixa dos diplomas seria facilmente esquecida.

2. Depois ela pode seguir o exemplo do Conselho Federal de Medicina (a quem se compara em termos de “especialização” da profissão) e levar muito a sério os processos abertos em relação ás más-práticas jornalísticas. O que teria de jornalista perdendo o registro por aí, não tá escrito.

3. Aí ela podia aproveitar a deixa pra incentivar a modernização (eufemismo pra “corrida atrás do prejuízo”) não só dos cursos de jornalismo, mas das redações em geral. Não bastasse a lambança discursiva da briga contra o blog da Petrobrás, que misturou alhos com bugalhos e subverteu inexplicavelmente o próprio código de ética dos Jornalistas em todo o seu Capítulo I, os novos desafios do Jornalismo estão aí e a briga vai ser cada vez mais feia daqui pra frente.

Ainda tá pra aparecer a empresa que entendeu de uma vez por todas como ganhar dinheiro com jornalismo na Internet. E o mercado é cruel, mas é soberano. Portanto, meus senhores, o diploma já caiu – muito antes do STF ter lhe dado o tiro de misericórdia. Voltar nessa discussão é bobagem. Andando pra frente é que a gente constrói o que vai ser da comunicação do futuro.

o diploma, o Jornalista e a diferença entre eles

Esse post foi motivado pela Campanha da Fenaj pela regulamentação da profissão de Jornalista e por uma polêmica levantada outro dia nos comentários do blog da minha amiga Iana. Vou por tópicos pro texto não ficar muito cansativo:

Das profissões

Por que algumas profissões precisam de formações definidas e outras não? Qual é a formação superior necessária para ser um bom Presidente da República? Aliás, precisa-se mesmo de formação superior para ser um bom presidente? Em 120 anos de República, tivemos 9 presidentes militares, 19 advogados, 2 jornalistas, 1 médico, 1 empresário, 1 engenheiro, 1 sociólogo e 1 metalúrgico.

E dou um doce pra quem souber, sem procurar no google, quem eram os 2 jornalistas…

Isso mesmo, Ranieri Mazilli, que governou durante 13 dias em 1961 e o nosso queridíssimo José Sarney, presidente de 1985 a 1990. >> Acho que eu nem precisava continuar esse texto, mas eu sou chato, então vou. hehe…

Pensando bem, se compararmos o Presidente e o Jornalista, qual deles precisa mais de um diploma? Depois de 8 anos governados por um presidente que terminou o 2º grau em um curso supletivo e ainda assim é a 18ª pessoa mais poderosa do mundo e um dos presidentes mais populares do país, fica difícil crer que a profissão de Jornalista realmente demande mais educação formal. Não me entendam mal: não é a necessidade de formação dos jornalistas; é a forma como eles são formados é que compõe o problema. Por isso eu defendo que a qualidade da formação, muito mais do que o diploma, é que deve nortear o registro de Jornalista.

Das necessidades

E assim me posiciono contra a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Assim como sou contra a obrigatoriedade do diploma de Relações Públicas e concordo em gênero, número e grau com o ministro Gilmar Mendes quando ele diz que o diploma só pode ser obrigatório em profissões cujo mau exercício ameace a vida e a segurança públicas.

O mau jornalismo pode causar problemas sérios? Pode. E causa. Mas isso tem muito mais a ver com a qualidade da edição dos veículos e com a falta de crítica e formação do público do que com a formação do Jornalista que, principalmente nos grandes veículos, não é mais do que uma peça Chapliniana na engrenagem da máquina de notícias. Tenho certeza absoluta que havia seríssimos Jornalistas formados e diplomados envolvidos na lambança do caso Escola de Base ou no Escândalo das Bicicletas.

Da formação do Jornalista

A meu ver, o que acontece nesse dois casos é uma confusão estranhamente comum: o diploma não é a profissão e a profissão não se resume ao diploma. Em ambos os casos, a justificativa para a manutenção da obrigatoriedade é a necessidade de formação de qualidade ética e técnica para o exercício da profissão.

Então sejamos razoáveis e separemos as duas coisas. Acho que todos acreditamos que a formação que tivemos na nossa faculdade faz de nós pessoas mais éticas e com melhor definição crítica de mundo do que eramos antes. Claro, mas em que isso nos diferencia dos nossos colegas Sociólogos, Cientistas Politicos, Historiadores, Linguistas, Filósofos e Designers (pra ficar no campo das ciências sociais aplicadas)? Pra mim, em nada.

Olhando pelo outro lado, acredito que qualidade técnica de um Jornalista está baseada em alguns critérios fundamentais: técnica de apuração, técnica de redação e técnica de edição. Temos noções de todas elas durante a faculdade, mas com uma grande ênfase na técnica de redação, até porque as técnicas de apuração e de edição só serão aprendidas de verdade no dia-a-dia. E isso é natural. Fazer jornalismo não é uma função simples, tampouco uma questão de fundo teórico; a prática das ruas não é possível de ser aprendida nas faculdades, por mais que jornais laboratório muito bons como “O Marco” sirvam de ajuda.

O campo da técnica de apuração tem, inclusive, mais a ver com a nossa ética e crítica social do que com o exercício diário da notícia. Apurar bem requer os mesmos cuidados de ler e interpretar bem: atenção a detalhes, cuidado com as fontes, cruzamento de informações e muita cautela nas conclusões. Já editar bem requer, no contexto jornalístico atual, muito mais conhecimento da linha editorial do veículo que se representa, suas convicções políticas e sociais e o conhecimento do público-alvo do que qualquer faculdade pode nos apresentar.

Da decisão do Supremo

A decisão do Supremo de retirar a obrigatoriedade do diploma para o exercício é, portanto, válida e muito acertada, do ponto de vista legal. Retira-se não da “categoria” de Jornalistas, mas da exclusividade de “Bacharéis em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo” a exclusividade sobre a produção de textos informativos para os veículos de mídia, ou seja, acaba-se com uma reserva de mercado que não faz sentido, uma vez que a formação necessária para o bom exercício da profissão pode ser alcançada também por outras formas. Por que uma pessoa com sólida formação ética e crítica não poderia se formar em um curso técnico de apuração e redação e tão boa Jornalista quanto qualquer outra? Escrever bem é, no meu entender, o menor dos problemas da formação jornalística. Qualquer pessoa que tenha lido o suficiente na infância e adolescência pode escrever melhor do que um leitor medíocre formado em Jornalismo.

Do futuro

Os Jornalistas tem um sindicato bastante forte e atuante, políticamente inclusive, ao contrário dos Relações Públicas, que se agrupam em conselhos fracos e não-atuantes, que não fazem jus ao seu papel atribuído pelo governo. Em ambos os casos, no entanto, a obrigatoriedade de diploma e registro serve a um único princípio: reservar vagas no mercado de trabalho aos egressos das universidades com essa formação, o que cria, no caso dos Jornalistas, um imbróglio pros não formados, e no caso dos RPs, uma idiossincrasia gigantesca em relação à “quais tarefas são privativas do profissional”, além de alimentar as eternas lutas pelo “fortalecimento da profissão” – como se profissões fortes fossem feitas de discursos, e não de profissionais “de peso”.

Com isso em mente, acredito que resta apenas uma escolha ou direção para os cursos e empresas de Jornalismo: formar sólidas mentes críticas, capazes de raciocinar e analisar contextos e narrativas, personagens e tramas, visões locais e visões globais, atribuindo a elas ainda uma base da técnica de redação, que, como comentei em outro post, reavivou os jornais, ao mesmo tempo que matou a essência da notícia. Nesse sentido, o curso de Jornalismo passa a ser o que todo curso superior deveria ser: um formador de pessoas com foco na produção e análise de notícias, não um formador de profissionais redatores. E é por esse motivo que ele não vai acabar. Porque formar pessoas é importante em qualquer área. Se os cursos de Jornalismo fizerem o seu dever de casa direito, provavelmente passarão inclusive a atrair mais gente, porque convenhamos, formação crítica, salvo raros e brilhantes casos, não é mesmo o forte da universidade brasileira.

Não podemos esquecer que as empresas de mídia são, antes de tudo, empresas. E empresas visam o lucro, e para obtê-lo precisam de qualidade nos seus produtos. E produtos de qualidade não são adquiridos a qualquer preço, nem por qualquer formação. Por isso o diploma de Jornalismo continua a valer. Por isso a formação acadêmica ainda será importante.

E por isso não é necessário temer que o padeiro venha a tomar o seu lugar como Jornalista. Isto é, exceto se o padeiro tiver uma melhor crítica e um melhor texto do que o seu. Aí mermão, tu tá lascado mesmo.

sobre esse assunto, vale a pena ler:

Porque sou jornalista – Iana Coimbra

O diploma e as faculdades de jornalismo – Luis Nassif

Ainda sobre o diploma de jornalista – Luis Nassif

Cai diploma para jornalistas. Comofas? – Marcelo Träsel

STF não sabe o que é jornalismo – Marcelo Träsel

Diploma, pra quê te quero – Marjorie Rodrigues

Advogado e jornalista – Renato Pacca

e uma pá de outros…

Mídia virtual – comportamento real

A gente já sabe de toda a revolução que as mídias sociais causaram, do deslocamento da mídia tradicional, da distribuição da produção, da popularização, das respostas e etc.

O que poucas vezes a gente viu ainda são casos sérios de debate e de balanço inteligente entre a mídia social e o poder real. O vídeo abaixo é muito interessante e conta três histórias sobre o uso político do Twitter, Facebook e das Mídias Sociais. Elas mostram, basicamente, que a mudança vem de onde a inovação está, não de onde a tecnologia está.

0′30″ – Nigeria elections transfers technology and social capital to the US.

6′50″ – China’s great firewall didn’t see it coming.

13′30″ – Obama: “i’m gonna take my lumps on this one”

a “reinvenção” do telhado de vidro

Nunca foi tão fácil e rápido jogar pedras no telhado do vizinho.

Preparar estratégias pensando na nossa capacidade de combate e de resposta inclui, além de formar nossas defesas com base nas informações existentes: não criar polêmicas desnecessárias, não ficar calados, mas não gerar informações novas que não possam ser sustentadas e não usar de terceiros para dar informações institucionais. O risco que corremos não é sempre o mesmo. O apedrejamento pode ser merecido ou imerecido; justo ou injusto; amador ou profissional; massivo ou tímido; não existe fórmula – a única certeza é que o que vem são pedras mesmo, de verdade. Nesse sentido, as ferramentas, inclusive as jurídicas, funcionam somente como o muro que recebe as pedras, mas nunca substituirão as pessoas que pensam e montam a negociação com os adversários.

Alguns exemplos recentes falam por si só:

Dafra – Você por cima

Abril: Dafra – você por cima

Maio: Dafra – você por cima da merda

Resposta da Dafra: usou a tática jurídica e tirou os filmes do ar por infringirem a lei de direitos autorais.

Resultado: os vídeos continuam lá e a campanha continua aumentando. Só o site viralvideochart.com conta mais de 15 cópias e cerca de 250.000 exibições.

Lição: a mesma do vídeo da Cicarelli – era melhor não ter feito nada. Tirar os vídeos do ar ao invés de oferecer uma resposta honesta às críticas só aguça a curiosidade do usuário, além de criar um “desafio” informal pra que o vídeo se reproduza cada vez mais. Se a Dafra tivesse dado uma resposta técnica, diretamente ao usuário inicial, e tirado seu time de campo, a polêmica seria muito menor. Resta saber se ela viu quando a polêmica começou ou se só foi perceber um mês depois. A Dafra converteu o público do youtube em seu inimigo.

MPM – Logomarca de São Paulo 2014

31 de maio: MPM Propaganda – A logomarca de São Paulo na Copa 2014

1º de junho: Mario Amaya: Deixem os logotipos para quem sabe desenhá-los

1º de junho: Carlos Merigo: O temível logo de São Paulo, cidade sede da Copa de 2014

2 de junho: Copa 2014 @ SP REMIX

Resposta da MPM: Até agora nenhuma, exceto uma declaração de um dos criadores, antes da polêmica, que só aumentou a ira dos comentaristas. Alguns perfis fake foram criados para defender as idéias da MPM, mas como de praxe, foram severamente reprimidos pelos comentários dos demais.

Resultado:public-bashing continua depois de uma semana só vai morrer quando um fato novo tomar o lugar deste ou quando os formadores de opinião se cansarem.

Lição: Todo cuidado é pouco quando se trata de paixões nacionais – as polêmicas são inevitáveis. Mas quando as críticas chegam de gente “de peso” (como o Mario Amaya) e/ou de projeção (como o Merigo), designers e publicitários respeitados e formadores de opinião, convém não ignorar. Se a MPM tivesse abertamente respondido às críticas, defendendo sua criação ou reconhecendo seus erros, a polêmica teria esfriado no começo da semana passada. O que alimentou os leões foi justamente a falta de um posicionamento claro por parte da agência. Ainda tem gente esperando que ela volte atrás e diga que foi uma pegadinha. O rastro desse episódio é curto, atinge só a comunidade dos “antenados” em publicidade, mas em se tratando de uma MPM, ele não é nada desprezível. A MPM ignorou o seu público e vai sair manchada da história.

GM Reinvention

1º de junho: GM Reinvention websiteGM Reinvention vídeo

4 de junho: GM Retardation websiteGM Retardation vídeo

Resposta da GM: Nenhuma resposta direta, até agora. Mas a alimentação dos canais de informação foi muito reforçada em 2009, com fatos positivos e negativos, preparando a empresa para o inevitável. a GM mantém blogs da alta direção falando sobre o assunto, ao mesmo tempo em que coloca seus assuntos-chave de produtividade, novos desenvolvimentos e inovação. Entre eles estão:Driving Conversations, dedicado ao público europeu, onde o VP de Comunicação para a Europa fez um comentário muito interessante e honesto sobre a relação da Opel com a imprensa e o Fast Lane, dedicado ao público mundial, mas principalmente dos EUA, onde o CEO anunciou a falência, respondeu comentários e participou de ações interativas, além da participação de outros altos-executivos.

Resultado: Aparte os blogs que insistem em chamá-la de Government Motors, o que, por si só, é uma piada pronta, inofensiva e que já está no ar desde 2008, não deve haver muita repercussão além dos fatos – já que a GM responde aos jornalistas e ao público em geral com eles. Chama-la de Goverment Motors é, no mínimo, uma piada legítima e espirituosa – tenho certeza que o próprio Fritz Henderson riu. Uma empresa com bases sólidas de informação online (o FastLane está no ar desde 2005) não vai sucumbir a ataques momentâneos, por mais pesados que sejam, se a estratégia de reinvenção for mesmo uma realidade.

Lição: Ao que parece, a estratégia da GM é a de continuar no seu caminho, divulgando e dando espaço para contribuições não só de jornais mas tb de blogs na sua pagina, apoiando-se no nome que não vai cair assim tão facilmente e na relevância do material que está publicando. Ao optar pela idéia de reinvenção, a empresa está admitindo que errou durante um tempo (o próprio texto do vídeo diz isso muito claramente) e isso dá a ela, junto à grande maioria da opinião na internet, uma carta meio-branca pra usar – todo mundo gosta de gente e de empresas humildes, principalmente quando elas empregam dezenas de milhares de pessoas e podem dizer sem medo que são inovadoras. Importante dizer que admitir os erros e os defeitos em um único vídeo é bom, mas não gera relevância. O conjunto de pessoas certas falando as coisas certas com frequência é que tem feito o acontecimento. A GM transformou os próprios funcionários e todas as suas ações em veiculadores e trata a mídia como adversária, não como inimiga.

Petrobrás Fatos e Dados

2 de junho: Petrobrás lança blog Fatos e Dados

6 de junho: Folha: Petrobrás usa blog para vazar reportagens (para assinantes)

8 de junho: Associação Nacional de Jornais divulga nota de repúdio

Resposta da Petrobrás: Por enquanto, está rebatendo cada um dos artigos negativos no blog, usando ao máximo as armas da imprensa contra ela.

Resultado: Por enquanto, extremamente crítico por parte da imprensa e positivo por parte da opinião pública, o que vai fazer com que as investigações sejam mais firmes e pesadas, mas que o apoio à empresa está mais sólido por parte da população virtual.

Lição: Existem várias cartas a ser jogadas e essa batalha ainda está no começo. A briga deve estender-se para os domínios da publicidade e tomar contornos econômicos inclusive, um tipo de pressão que a Petrobrás pode fazer sobre a imprensa, mas que provavelmente deixará para último caso, porque pode ser percebida como jogo baixo, algo como o que alguns governos costumam jogar. Ao que tudo indica, a empresa está construíndo uma base sólida de informações, um respositório de defesa visando vencer no ringue uma briga política, antes que ela vá ao tapetão. A reação da imprensa tem sido ainda muito tacanha, acuada, mas pode ser que resolvam em breve sair com alguma grande notícia ou furo que desarme a estatal – nenhuma base de informação está imune a um furo bem dado, e todo mundo sabe que a Petrobrás está longe de ser uma ovelhinha no jogo político. Resta saber como ela está se preparando por trás dos panos pra quando esse momento chegar. A Petrobrás transformou a opinião pública em um aliado e produziu um feito: um veículo chapa-branca com mais credibilidade e apoio do que a imprensa supostamente livre.

bases descentralizadas de conteúdos

Experiente que é em questões de imprensa e polêmicas em geral, a Petrobrás sabia que a notícia da CPI ia gerar muita informação, muita necessidade de resposta e muitos, muitos erros, principalmente em se tratando de uma questão que motiva tantos interesses políticos: governo e oposição querem ser donos do pré-sal e de Tupi e ambos estão de olho em 2010, o governo querendo a estatal como um dos seus estandartes de eficiência e a oposição querendo jeitos de dizer que não é bem assim.

Pois bem. A oposição montou a CPI, que o governo não conseguiu evitar, e começa a confusão. A Petrobrás, sabendo onde isso pode dar, criou um blog para responder às questões de jornalistas e colocar integralmente a sua opinião, escapando dos editores. Está em http://petrobrasfatosedados.wordpress.com .

Fatos que me chamaram a atenção:

1. Agilidade. A CPI ainda não foi instalada por complicações políticas entre Lula, Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Aloísio Mercadante e outros. Mas a Petrobrás já montou seu esquema de defesa.

2. Volume. O Blog foi lançado em 2 de junho e já tem 21 artigos publicados – uma ótima forma de criar presença e aumentar o seu ranking como fonte de informação. Não necessariamente continuará nesse ritmo, mas está criando presença e credibilidade em forma de volume de informações.

3. Clareza e assinatura. Na área “sobre o blog” e em todas as perguntas de jornalistas a respeito, informa-se que o veículo é conduzido pela equipe de comunicação da Petrobrás e que o objetivo é esclarecer fatos e publicar opiniões não-editadas pelos jornais. (http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/politica-de-comentarios/ )

4. Abertura. Os comentários são abertos e moderados com um critério simples: “O critério para publicação é que não tenham conteúdo ofensivo ou desassociado do tema do site.”

5. Atenção ao leitor. Apesar de ser um blog criado com o objetivo de confrontar a imprensa, o leitor comum está sendo atendido, tanto em respostas de comentários  (ex.:http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/politica-de-comentarios/#comment-274 ) como em posts específicos criados a partir da demanda (ex.:http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/2009/06/05/esclarecimentos-sobre-o-preco-da-gasolina/ )

6. Respostas. As respostas publicadas no blog não necessariamente trazem todos os fatos ou questões apresentadas nas perguntas, o que dá margem a interpretações. No entanto, somente a estratégia de publicá-las já ganha amplo apoio do público, como se pode ver na grande maioria dos comentários.

7. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O fato de o blog ter sido publicado no Wordpress não é mais do que uma iniciativa de separar a discussão do ambiente institucional.

Criar uma base de conteúdos que não esteja diretamente ligada à Agência Petrobrás de Notícias (http://www.agenciapetrobrasdenoticias.com.br/ ) é uma forma de não entupir o noticiário institucional da empresa com informações de “peso” negativo. Ao utilizar uma plataforma acreditada, a empresa se vale da relevância do wordpress e desvia a discussão “pesada” para fora da sua página institucional, onde continua lançando assuntos diversos e de interesse dos leitores não necessariamente interessados na CPI. Já houve uma iniciativa semelhante, em 2008, com o Blog dos 40 anos em Minas, que era hospedado no domínio petrobras.com.br mas separado da área de notícias para não haver confusões (http://www.petrobras.com.br/blogminas/ ).

é um ótimo case para ficarmos de olho nos desenvolvimentos e aprendermos sobre a formulação de estratégias na web para os nosso clientes.

Us Now: A film project about the power of mass collaboration, government and the internet

Estamos vivendo um momento de divisão. Não nos impressionamos por qualquer coisa e já vai longe o tempo em que só as coisas grandes e imponentes nos impressionavam.

Se usarmos da mesma metáfora da web, acho que estamos deixando pra trás a era do “Uau! 1.0″, marcada pelas grandes demonstrações de poder, quando os desfiles de exércitos soviéticos e alemães, os discursos inflamados de políticos influentes, os mega-shows com milhares de espectadores e tudo o mais nos impressionava por suas dimensões no tempo e espaço definidos. Estamos abandonando o mote que abriu a idéia dos jogos olímpicos, na grécia antiga: Citius, Altius, Fortius - ”Mais rápido, mais alto, mais forte”.

Tentei encontrar outro mote, mas os meus parcos conhecimentos de latim e wikipédia não foram suficientes. Não há, ainda, nada que explique a era do “Uau! 2.0″, exceto as impressões causadas não pelo mais rápido, pelo mais alto, ou pelo mais forte, mas sim pelo menos provável, pelo comum, pelo ordinário.

A ciberdemocracia nasceu na era do Uau! 2.0. E Uau! foi justamente a impressão que eu tive durante cada um dos 58min do recém-lançado filme Us Now: A film project about the power of mass collaboration, government and the internet. Lançado gratuitamente via Internet (claro), o questionamento filosófico dos autores é simples: 

In a world in which information is like air, what happens to power?

Mas o questionamento real é outro, expresso em uma linha de texto dentro do filme, que coloca todo o poder atribuído à colaboração em massa em cheque:

So if you can create an encyclopedia with a million people who’ve never met but the quality is just as good as Britannica, what else could you create? (…) we can work togheter in ways that ask a deeper question about the role of government:

can we all govern?

Do orçamento participativo inglês a um time de futebol completamente gerenciado por seus 30.000 torcedores via internet, o filme traz alguns insights pra termos uma noção de como será a nossa vida compartilhada dentro de pouco tempo – e um final que justifica o primeiro parágrafo desse texto. Ao contrário da idéia de carros voadores e naves espaciais de altíssima complexidade, nosso futuro colaborativo será simples. Extremamente simples – e é isso que vai nos deixar impressionados.*

Recomendo muito assistirem: http://watch.usnowfilm.com/subtitled (legendas em inglês disponíveis. Não dou 1 semana pra ter em português tb!)

 

* link muito interessante com uma frase que recolhi nas minhas pesquisas pro artigo que vai ser publicado em breve. adorei poder usá-la aqui, já que lá ela não coube:

“A afirmação pode provocar risos, mas as relações públicas e a comunicação organizacional [e nesse caso também a política governamental] estão cada vez mais próximas do eletrodoméstico, que, felizmente, é a forma mais agradável de tecnologia. O seu design é bonito, sedutor, eficiente, descomplicado; as suas inúmeras funções são acionadas de forma simples e rápida; os manuais tem linguagem acessível, direcionada para o leigo. Tudo nele é concebido para o uso fácil, instantâneo e massivo. Assim são as famílias de liquidificadores, fogões, geladeiras, batedeiras de bolos, televisores, transmissores de imagem e som, entre outras.”  (Paulo Nassar. O uso das novas tecnologias de acesso ao virtual)

Como seria? Como será?

Como será ter um candidato a prefeito?

Não um candidato qualquer. Um candidato mesmo, daqueles que a gente torçe pra ganhar e fica triste se perder? Naquele estilo das democracias onde os partidos realmente são diferentes, em que você torce pelo seu partido,  por suas crenças e sua ideologia como se fosse o time de futebol?

Esse ano eu, pela primeira vez, tenho um candidato que realmente quero que ganhe, uma candidata, na verdade. Pena que ela concorre em SP, não em BH. Mas quem sabe um dia.

Foi essa divagação sobre as diferenças internacionais que me fez perguntar: Será que o nosso sistema político, não só o partidário, mas o sistema como um todo, o mesmo que beneficia os acordões e que hoje ainda serve muito mais como poder particular do que público… será que ele tem jeito? Ou o jeito é jogar fora e começar de novo? Porque se for, sei lá… Tenho minhas dúvidas se quero estar aqui pra ver isso.

Nesse ponto, Moscou, Havana e Brasília tem muito em comum. São três cidades onde se tentou criar do zero um novo jeito de se viver, na base da canetada. Não deu certo. O documento do comunista Lúcio Costa começa com uma cruz, de quem marca um lugar a se possuir, assim como a Geórgia agora tenta fazer com a Ossétia do Sul: “é meu, e pronto”. Brasília e os estados que, livres do jugo da URSS, correram em direção ao capitalismo, entre eles a Geórgia, só mostram juntos que re-inventar a roda não é possível. Havana espera essa mesma chance há décadas.

A questão é que as coisas só mudam de verdade quando as pessoas que vivem (e não as que comandam) resolvem que essa mudança é válida. O que nos devolve à questão das eleições: É preciso admitir que não dá pra ficar esperando a resposta cair do céu, principalmente se for na forma de canetada. Pensa bem: o iluminismo, a revolução industrial, os direitos das mulheres, dos negros e das crianças. Todos foram ratificados por canetadas, mas em todos os casos, a mudança aconteceu antes, na cabeça das pessoas, e não no sentido inverso. Na contramão temos a Venezuela, a Bolívia, o Irã, a Geórgia e os três vértices da Praça dos Três Poderes vira e mexe querendo provocar mudanças na base da canetada.

Nesse caso, se a gente correr dessa situação, acelerando em direção ao futuro (como faz o pessoal da OCAS, o Dimenstein e tantos outros bons – mas ainda poucos – exemplos), o bicho ainda pega agora, mas aos pouquinhos vai cedendo na mordida. O problema todo é que se ficar, ele come mesmo.

A frase da semana é: “Se Brasília fosse um bom lugar, o Niemeyer não morava no Rio”. Ouvida da boca da Gisele, moradora da terra dos candangos.

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Há algumas semanas tenho juntado pensamentos para um novo post, que hora parece que é sobre eleições, oora sobre leis, ora sobre trânsito, ora sobre isso, oora sobre aquilo. Na verdade, só o que parece é que nunca vai sair da cabeça e cair no papel (ou no bloco de notas). Em resumo, desde o último post eu ganhei um aumento, de trabalho, conheci a Serra do Cipó e Conceição do Mato Dentro, revi Diamantina, me decepcionei com Milho Verde, mas adorei o Serro. Conheci Brasília e ainda não me recuperei. Me despedi da Lisa no mínimo pelos próximos 4 meses e isso doeu. Depois fui ao Museu da Língua Portuguesa em São Paulo e aprendi um bocado de coisas legais sobre a minha língua que, quanto mais aprendo as outras, mais me orgulho de ter nascido lusófono… :)

O pensamento que há mais tempo esperava pra cair no papel era esse do prmeiro parágrafo. Calhou de juntar com a visita a Brasília, que rendeu o resto do texto.

quem agüenta, bebe leite! quem não agüenta, anda de táxi.

Tenho acompanhado com atenção difusa toda a polêmica em torno da injustamente chamada lei-seca (afinal de contas, como disse o Dimenstein, ela não é seca coisa nenhuma, e a comparação com a semelhante norte-americana é injusta).

Como recém-emancipado pedestre por opção, titulado em algumas várias noites de voltar pra casa depois de ingerir álcool, ainda no carro da mamãe, e recém-inserido no mundo dos tomadores de taxi compulsivos, acho que tenho algumas opiniões para colocar aqui.

A primeira é de que beber e dirigir não combina. Ponto. Todo mundo sabe disso, até eu, você e o dono do bar.

Claro que não vou me colocar aqui como o moralista da história. Eu, como tantos, nunca fui forte o suficiente pra abdicar do álcool por causa do volante – motivo pelo qual minha transição à vida de pedestre se deu razoavelmente baseada na sensatez. E eu, como tantos, sempre dei a mesma desculpa quando flagrado por alguém (nunca por um policial) nesta situação: eu não tinha bebido tanto – o que talvez possa ser provado pelo fato de que eu nunca causei um acidente estando alcoolizado, mas já causei dois estando perfeitamente sóbrio, culpa da inexperiência e da desatenção, respectivamente.

E aí entra o ponto desse artigo. O que é beber muito? Ou o que é beber o suficiente para preferir um taxi?

Tenho visto algumas comparações entre a lei brasileira e algumas outras européias ou estadunidenses, mas nenhuma que eu tenha visto ainda levou em consideração um fator cultural importantíssimo, percebido por mim nos 2 meses em que tenho vivido com meus roomates canadenses.

Tem a ver com o que eu vou chamar de “o jeito brasileiro de beber”. O “jeito brasileiro de beber” é, até onde eu sei, uma invenção dos povos latinos, quentes, sociais. E esse “jeito”, como qualquer característica cultural, tem suas regras de funcionamento, dominadas automaticamente por qualquer nativo dessa cultura. No Brasil, beber é um ato social. Se falamos de cerveja, que é indiscutivelmente a preferência nacional, de norte a sul, beber é um ato de compartilhar. Mais ou menos como o “cachimbo da paz”, mas ao invés da erva (neste caso), usamos a bebida. Aqui, nós gostamos é de garrafas nem tão grandes como as chilenas ou uruguaias, de um litro, nem tão pequenas como as individualistas americanas e européias long-necks, que de tão longe da nossa cultura latina, ganharam espaço nos bares mas não conseguiram nem um nome aportuguesado. Combinadas com copos pequenos, as garrafas de 600ml compõem o cenário para uma troca cultural que termina no fim da noite com várias garrafas sobre a mesa, vários copos vazios ou meio-vazios, e ninguém sabendo quanto tomou. Afinal de contas, se vc tem 1 garrafa pra cada pessoa, fica fácil entender quantas você tomou. Mas dividir 36 garrafas por 17 pessoas não é conta simples (36!), nem justa com aqueles que se contentaram com menos e invariavelmente se depararam com os comentários do tipo: “se não aguenta bebe leite!”

A discussão cultural vem a reboque do ponto-cego da discussão sobre a lei. Qual a quantidade certa? Os atuais 0,2 ou os antigos 0,6? Na verdade, não importa. A menos que eu seja control-freak o suficiente pra contar quantos copos de cerveja tomo por hora afim de, no fim da jornada alcóolica deduzir, de acordo com minha altura e peso, se posso ou não dirigir.

A tolerância zero não é mais do que um reflexo do nosso jeito de usar o álcool. Se alhures pode ser mais simples medir as quantidades individuais, ou transformá-las em índices simples de cálculo (2 long-necks ou um copo de uísque), aqui não dá pra fazer isso. Porque para nós, a graça do álcool está no compartilhamento e na gradativa mudança coletiva dos que compartilham o momento; não no consumo individual, para prazer próprio.

Ao contrário do que andam dizendo por aí, a nova lei não é abusiva. Só reflete alguns anos de aprendizado em leis que pegam ou que não pegam no Brasil. Porque o medo é, sim, quando bem utilizado, uma forma lícita de se coibir abusos. Foi assim com o Cinto de Segurança, na entrada do novo código de trânsito. Chiamos todos, mas pegou ao ponto de acharmos estranhos ver alguém em um carro sem. Claro que faltam ajustes, como em todas as leis. Mas posso lançar outras perguntas: por que são as leis que têm que mudar sempre? Sempre o comportamento da polícia, da justiça, nunca o da população? Não precisa ir longe pra entender que a descrição cultural 3 parágrafos acima ilustra o conceito sempre presente de “sair pra beber” – uma marca da juventude brasileira, mas que não tem nada de nova no nosso comportamento.

Voltar atrás na decisão de apertar os cintos também no álcool será pior que reaprender alguns hábitos sociais.

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