vai pensando aí…

não é uma questão de SER contra ou a favor.

é uma questão de PODER ser contra ou a favor, sacou?

Quem tem medo do lobo-mau?

mugger_ipod.jpgEm meus 23 anos, 18 deles morando em uma cidade com 3 milhões de outras pessoas, me recordo de ter tido um boné furtado aos 11 anos, ter um relógio roubado aos 13, e ter sido abordado por um garoto que pedia meus vales-transporte, aos 20. Na última sexta-feira, havia 2 iPods – o grande símbolo que para uns divide os amantes da música entre “ricos” e “pobres” – ligados e à vista dentro do ônibus na volta para casa, em pleno horário de pico. Os donos ouviam suas músicas tranqüilamente, desceram calmamente em seus respectivos pontos e continuaram suas vidas, já que nada havia acontecido. O que aconteceu de errado?

Acredito que a resposta certa seja: nada.

Será que precisamos mesmo viver com esse medo crônico que nos faz viver escondidos atrás dos vidros e das bolsas, andar rápido e atentos para não sermos seguidos? Será que já não nos tornamos reféns do nosso próprio medo?

Essa semana essa questão me voltou à mente com algumas nuances que há algum tempo não me atormentavam, talvez desde que tomei a decisão de não ser mais esse refém. Note-se que não falo aqui de ser “descuidado”, e sim, de não viver atormentado pelo medo, não basear minhas atitudes no que “pode” acontecer “se” alguém um dia quiser um objeto meu.

Acho que tenho vivido melhor assim. Mais tranqüilo, com mais disposição para fazer bom uso do meu tempo e mais feliz. Mas sei que tenho me arriscado. Quando escolhi não viver com medo, escolhi, sempre que possível, correr um risco que talvez seja maior, mas muito mais valioso: confiar nas pessoas como eu gostaria que elas confiassem em mim.

Forçando a barra…

Hoje à noite, na volta para casa, me peguei pensando em como a gente gosta de forçar a barra das coisas. Me veio, a princípio, como uma característica própria do brasileiro. No entanto, pelo meu total desconhecimento das culturas de outros países, não posso dizer assim que isso seja uma característica única nossa.

Mas se fosse, essa seria uma de que o brasileiro se ufanaria. Aliás, já o faz, mas por outro lado. O brasileiro é o dono do mundialmente famoso “jeitinho”, que uma vez me fez passar vergonha num evento internacional aqui em BH… caso para outro post.

O “forçar a barra” a que me refiro hoje é um pouco mais do que o uso do “jeitinho”. É toda uma categoria de comportamentos que envolvem usar desculpas para se passar por uma identidade que não se tem (ou se é), para ter uma atitude que não assumiria ou simplesmente para fugir da responsabilidade da aplicação do pensamento.

Exemplo nº1 ou: à la folie? pas du tout…

Ouço todos os dias a coluna “seus filhos” da Rosely Sayão na rádio Band News FM. Não por escolha, mas porque ela está na faixa de horário em que eu ouço a rádio (entre 6h30 e 7h35 da manhã, no trajeto casa/trabalho), e a coluna até que é muito boa. E na coluna de hoje ela falava sobre as viagens de comemoração de final do ensino médio e como essas viagens às vezes se tornam grandes pretextos para se “ir à forra”, “sair do normal” e “fazer besteira” com a desculpa de se livrar do “enorme peso” do Ensino Médio. —— Cá entre nós. Pode até ser que os alunos de escolas super-exigentes e de ponta precisem mesmo se despressurizar ao final da sua primeira jornada de 11 anos escolares. Mas será que é esse o caso dos nossos estudantes comuns do Ensino Médio? “Been there, done that”, diria o sábio. Compreendo, mas não concordo. Acho que a cultura poderia ser criada de forma diferente. Por que diabos a farra precisa ter a desculpa da despressurização? Só pra não carregarmos as culpas das maluquices cometidas? Isso, pra mim, é “forçar a barra”.

Exemplo nº2 ou: le malade imaginaire

A mesma Rosely dizia, há alguns dias, sobre o mito das crianças hiperativas. Sobre a diferença daquelas que realmente tem problemas clínicos diagnosticados como “hiperatividade” e aquelas que simplesmente fazem mais do que os que gostam de ficar o dia inteiro na frente da tv, do playstation ou do computador. O que me chamou a atenção nesse assunto era o exemplo da criança que ao ser chamada à atenção por estar fazendo bagunça, dizia: “não posso evitar, eu sou hiperativa”. —— Aprendeu desde cedo a “forçar a barra” para justificar seus atos. E assim acontecem com todas as coisas dessa chamada vida moderna: “não posso evitar, eu sou estressado / anoréxica / hipocondríaco / cleptomaníaco / etc”. Ora, não tapemos o sol com a peneira. Todas essas condições clínicas existem. Mas eu aposto meu salário contra o seu que menos da metade das pessoas que se declaram como tais são realmente portadoras das patologias em si.

Exemplo nº3 ou: la haine

Hoje mesmo, no mesmo ponto de ônibus que eu, estava um rapazinho que não passava dos 17 anos. Indumentária comum a qualquer adolescente e um grande sei-lá-o-que-de-pendurar-coisas no pescoço (parecido com esses cordões de crachás, mas beeem mais largo). Até aí, tudo bem… mas o negócio em volta do pescoço do rapaz tinha a nome de uma banda brasileira (o rappa?) e uma imitação do selinho de mau-comportamento que as bandas americanas adoram mostrar por aí. “Parental Advisory: Explicit Content”. —— Por alguns segundos, me perguntei que diabos aquele selo estadunidense (que pra mim é um grande símbolo de todo o falso-moralismo à là tradição/família/propriedade vivido nos EUA) tava fazendo no cordão de uma banda brasileira. Até que me bateu: se lá ele é usado como um simbolo de transgressão pelas bandas mal-comportadas, infelizmente, é natural que aqui ele seja copiado. Infelizmente porque a cópia simplesmente ignora o fato de que o Brasil não classifica suas músicas entre próprias e impróprias para as faixas etárias. Faz algo muito mais inteligente: deixa isso a cargo das famílias e pessoas com decisão de compra. Mas o brasileiro não. Força a barra pra se parecer com essa imbecilidade importada. Se a moda pega…

Exemplo nº4 ou: le placard

Hoje ainda ouvi no rádio um ótimo programa sobre o mercado publicitário que poderia muito bem ser chamado de “Comercial e Cia”. Mas os produtores quiseram que se chamasse “Comercial e Cia on radio“. Tá. Pra quê mesmo? Antes que me joguem pedras, eu sou o primeiro a defender alguns estrangeirismos que não tem ou simplesmente não precisam de tradução (empowerment, accountability, mouse, fax, marketing, etc), mas qual o objetivo de se trocar o “no rádio” por um pedante “on radio“? Ficar chique? Isso, pra mim, é forçar a barra. Como eu já disse, o programa é ótimo, mas tem um quadro chamado “Advertising Brasil”. Pelas barbas do profeta. Não podia ser “Propaganda Brasil”, “Publicidade Brasil”, “Marketing Brasil”?. —— Os publicitários, tão descolados, podiam passar sem essa, não? Se bem que são eles que criam aquelas aberrações do tipo: “é muuuuuuito fanta” ou “schrubbles” ou “fique bamboochaa”. I rest my case.

Forcei a barra? Talvez… mas é porque o errado sou eu… o BBB7 vem aí…

o perneta e o cerebreta…

será que eu sou a única pessoa que se incomoda quando chamam ou referem-se ao lula pelo fato dele ter nove dedos?

Na boa, por maior que seja seu ódio do cara, precisa mesmo partir pra esse nível de argumentação? Como se isso fosse um defeito, como se o cara fosse menor, menos gente ou simplesmente como se isso tivesse alguma influência sobre a forma como ele conduz a própria vida?

Fico pensando se fosse com um cara tão admirado no país como o Lars Grael. Será que todo mundo ia se referir a ele como “aquele perneta”? Falta de educação, né? Nem parece que estamos falando da mesma coisa. Acho que posso propor um exercício melhor: da próxima vez que você vir uma pessoa com deficiência na rua, tente gritar pra ela:

“perneta! maneta! nove-dedos!”

e depois tente não se sentir um animal de circo, ok?

Note-se bem: eu não sou contra adjetivos, desde que mantenha-se uma coerência e um mínimo de educação. Vamos deixar uma coisa combinada: Não gostar que o cara se vista de vermelho e use barba é um direito seu. Se incomodar por ele ter nove dedos é um exemplo da pequenez do seu cérebro, ok?

Que fique bem claro, por favor: Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!

[post-puto] As partes sem todo

counter.jpgHoje eu fiz uma coisa execrável. Não conto o que foi, mas foi motivada por essa mania detestável de nós, seres humanos, considerarmos os outros como meras partes sem todo. Fulano é isso, ou aquilo, mas nunca o conjunto de todas essas coisas.

De todas essas mutilações, a que mais me deixa indignado é a mania que muito evangélicos têm de tratar a nós, ímpios, como meras almas perdidas ambulantes. Para estes (que sei, não são todos, mas representam uma bela parcela do protestantismo brasileiro) simplesmente não importa se você está bem no seu emprego, se está feliz, se está namorando, se vai comprar um carro, se tem projetos para o futuro, se faz alguma coisa pelas camadas mais pobres da população, se vai votar em PT ou PSDB, ou qualquer outra leviandade; eles só querem saber se você é “crente”. Enquanto você não passar para o lado deles, só isso importa. O resto só pode ser resolvido depois.

Enquanto isso, eu e as demais “almas sem corpo” que habitam esse planeta temos que aguentar as pregações e chatices desse povo que diz que jura de pé junto que nos ama como a eles próprios.

Depois dizem que as empresas é que nos tratam como meros números… Tá bom…

viva os pré-conceitos

Situação:
Você conhece a pessoa numa boate. No meio daquela conversa mole você percebe que o resumo da apresentação do(a) fulano(a) é:


“Eu tenho uma banda de rock”
“Eu sou mecânico”
“Eu assisto a filmes pornôs”
“Eu sou de direita”

ou:


“Eu gosto de jazz”
“Eu estudo odontologia”
“Eu gosto de filmes estrangeiros”
“Eu vou votar na Heloisa Helena”

—–
Acho o máximo como é possível associar qualquer pequena parte do comportamento de uma pessoa a todo um estilo de vida imaginado por seus interlocutores. De fato, os pré-conceitos movem o mundo.

Geramos pré-conceitos a cada experiência vivida. É a forma que nosso cérebro tem de assimilar as coisas que vemos todos os dias e, montando uma por cima da outra, tirar as conclusões sobre todos os assuntos. Ou seja, pré-conceitos nada mais são do que as conclusões pós-experiências.

O perigo todo está na transformação do pré-conceito em preconceito. Isso acontece quando achamos que já temos informações suficientes pra formular opiniões sobre algum assunto específico. Desligamos o gerador de pré-conceitos e começamos a disparar nosso preconceito formado por aí.

Não sei porque eu escrevi isso aqui. Mas acho que é uma reflexão que vale a pena ser feita. Além do mais, o blog é meu, e como (quase) ninguém me visita, eu escrevo o que eu quiser!

Por mil demônios, Bill!

disse no post anterior que ia escrever um agora continuando o pensamento do ônibus, mas vai ficar pra depois porque hoje eu encontrei um assunto mais importante pra escrever.

O fato básico que motiva essa coluna é: “Eu gosto de Matanza”. Quem? Bom, Matanza é basicamente uma banda de Heavy Metal melódico e escrachado. As letras da turma, todas ambientadas numa espécie de velho-oeste moderno dos EUA, se resumem em: beber, brigar, matar e morrer, (não necessariamente nessa ordem) e – sempre – achar graça disso tudo.

Mas aí quem fica sabendo dessa história me pergunta: “Mas você gosta disso?” (com aquele “disso” bem nojento). Bom… gosto não, adoro! Simplesmente porque os bacanas do Matanza incorporam o anti-estereótipo que muita gente morre de medo de existir na vida real: são ao mesmo tempo feios, sujos, bêbados, legais, engraçados e o pior: inteligentes! Os caras são capazes de pérolas que misturam Iron Maiden, Chitãozinho e Xororó e Gabriel Garcia Marquez no melhor dos mundos irreais:

“Ela roubou meu caminhão
Ela escreveu dizendo que não me agüentava mais
E foi embora com meu caminhão
(…)
Só me pergunto o que é que aconteceu
Ela ter ido embora tudo bem eu não tô nem aí
Perder meu caminhão foi que doeu”
(Ela roubou meu caminhão, do disco Santa Madre Cassino)

“Primeiro dia fora da cadeia estadual
Ela que eu encontro bem na porta a me esperar
Num conversível com motor ligado / Que acabara de roubar
(…)
Tanto tempo tinha que eu não via um pôr-do-sol
Melhor seria sem tanta sirene atrás de mim
(…)
E mesmo com a estrada bloqueada
Ela não pára de sorrir”
(Mesa de saloon, do disco Santa Madre Cassino)

e são capazes de contar histórias inteiras de ficar de boca aberta como em “Maldito hippie sujo” e “Quando bebe desse jeito”, ambas do disco “Música para Beber e Brigar” – aliás, com um título desse não precisava falar mais nada… .rs.

Conclusão:
E daí se os caras tão pouco se f** pro politicamente correto? Eles são bons e souberam, em dois discos, ilustrar um ambiente tão distante do nosso de forma tão pitoresca que (os puristas que me perdoem) me veio a comparação justíssima com GGMarquez… Contar uma história surreal já não é tarefa das mais fáceis. Fazer isso em poesia e ainda jogar guitarras à toda em cima, é de se laurear!

tudo que a gente não sabe sobre os outros

Pois é… depois de flertar com a idéia na despedia da Pri na segunda-feira e conversando ontem com a Carol, resolvi que ia mesmo voltar a me aventurar na internet… Mesmo depois de ter jurado não mais tentar… Mas quem se importa com o que eu jurei pra mim mesmo né?? hehe…

Resolvi que ia escrever um blog e que ia ter como ponto de partida as pessoas, as coisas e as situações que eu vejo nos 4 ônibus que eu pego todos os dias, mas que o blog estaria assim, digamos, aberto a contribuições de outras partes do meu cotidiano. Passei o dia pensando sobre que diabos eu poderia escrever já que todas as bizarrices que eu vejo todo dia já se tornaram comuns pra mim.

E é aí que entra meu último ônibus de hoje. Depois de 50min dentro do terceiro, desci no ponto e o outro já estava lá: que felicidade quando isso acontece, não? Nada de esperas, nada de ficar na rua de bobeira olhando pro nada e esperando aparecer aquela nave azul brilhante com setinhas também azuis e curvilíneas nas laterais. (Há que se dizer: o povo do BHBus é bom de marketing mesmo… só de chamar BHBus e não BHÔnibus já dá outro status pra coisa…) – mas divago.

Entrei e, como sempre, dei aquela scaneada básica nas pessoas pra sacar os melhores lugares pra se ficar em pé sem incomodar ou ser incomodado por alguém. Normalmente o melhor lugar é a roleta, onde existe uma linha imaginária que separa quem está dentro e quem está fora do seu raio e que, fora os embarques e desembarques, é quase sempre o lugar mais livre do ônibus. Bem, estava eu parado na roleta quando de repente me chega um estranho e invade o tal espaço imaginário. Literalmente colou em mim com aquela ânsia de quem quer passar logo pra descer no próximo ponto. Eu já pensei: “pô, podia ter passado antes né? Os lugares da frente são reservados…” Mas me abstive de falar qualquer coisa… Ainda estava pagando e dei um jeito de passar o quanto antes, com a carteira ainda na mão, cedendo o espaço reservado na roleta para o apressado. Me encostei na barra, pra terminar de guardar a carteira na bolsa e ajustar o volume do discman, porque ônibus sem música é o fim da picada… De repente, um cutucão. E outro, e outros aumentando a velocidade. O sujeito ainda não tinha passado… putz… Bom saí de perto da roleta e fui andando em direção ao fundo do ônibus: “dá licença?, com licença?” aquela gentileza urbana básica. E quando já tava me acomodando mais ou menos no centro do veículo, vi lá no fundo 2 lugares vazios. “Com tanta gente em pé, 2 lugares vazios? Tem alguma coisa estranha…” Resolvi ir conferir. E não é que quando eu tava pedindo licenças de novo o sujeito me cutuca de novo. “P****, vc não desceu ainda?”, penso. Mas simplesmente saio na frente andando, e o sujeito atrás de mim. Cheguei, olhei e nada. Acho que era sorte mesmo. Sentei na última cadeira do ônibus, em cima do motor, na janela. E o sujeito vem e senta do meu lado…

A essa altura eu já tava indignado. E eu não sou de ficar indignado. Me concentrei na música e vamos seguindo viagem. Faltam só uns 15min pra eu chegar em casa… De repente o distinto rapaz, que tava carregando uma pasta de curso, tira de dentro uma folha com aqueles gabaritos de prova de concurso público e começa a rabiscar. Rabisca, rabisca, rabisca e eu nada de entender o que ele tava fazendo. “Será que tá praticando a assinatura? Não… tá meio velho pra isso. Será que ele é grafiteiro? Não, além de estar meio velho, grafiteiro escreve em folha branca e não em folha coalhada de outras coisas em vermelho. Será que tá psicografando alguma coisa? Não… melhor não…” o pensamento voou e eu não descobri o que era. Pra tentar saber, comecei a investigar a aparência do sujeito. Primeira coisa que eu notei: Camisa polo laranja, calça de tactel preta, mocassim preto e, tchanananam: meias esportivas brancas… Dei aquela estremecida: ele é office-boy. Mas nada grave. Até que eu vi a quase-barba não-feita, o rosto cheio de espinhas e a unha grande do mindinho da mão direita “o horror, o horror!!”. Cultivada com carinho e já com uns 3 centímetros…

Meu medidor de preconceito quebrou os recordes mundiais da categoria…

Cacilda. Como a gente é besta… vai ver o cara até um sujeito legal… Mas quem quer descobrir? (gancho pro meu próximo post, que deve sair amanhã…)

e a pergunta que não quer calar: “QUE PRESSA ERA ESSA MEU AMIGO??” eu hein…

Copyright © 2010 o homem, omito…

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