[comentário] O que eu aprendi na Europa?

comentário postado no blog da Iana, num post sobre a falta de educação dos Milaneses

Construa o muro de novo

Construa o muro de novo

Quando estive na Europa, cada lugar me chamava a atenção por um motivo diferente, claro. Mas sem sombra de dúvida, os lugares que mais me intrigaram, que mais me atraíram os que eu mais quero voltar foram os imperfeitos. A Alemanha, com o muro ainda pichado e palavrões nas paredes,

No pé do muro tem uma plaquinha azul e branca escrito Denkmal. Sim, aquilo é um monumento.

No pé do muro tem uma plaquinha azul e branca escrito "Denkmal". Sim, aquilo é um monumento.

com inscrições como “baut die mauer wieder – construa o muro de novo” em frente a um museu nos escombros do prédio de comando do III Reich chamado “topografia do terror”. Juro que me senti “em casa” quando desci na estação de trem em Praga, suja, fedida, pichada em russo; ali eu tive orgulho da rodoviária de Belo Horizonte – mesma sensação na estação de Budapeste e no subúrbio de Zagreb.

Lugares imperfeitos tem “cheiro” de casa; de lugar onde moram seres humanos de verdade – não a família modelo que todo mundo quer que acreditemos que os europeus são; maldito complexo de cachorro esquecido na mudança. Claro que isso não é desculpa pra grosserias, uma vez que educação e gentileza são qualidades humanas, não étnicas ou urbanísticas. Infelizmente, em alguns lugares simplesmente não conseguimos nos encontrar com as pessoas que dariam vida à cidade em que vivem – aconteceu isso comigo em Buenos Aires, de onde tenho poucas boas lembranças, apesar de tudo.

Tive a mesma experiência que tanta gente em um supermercado na alemanha – tentar de todas as formas ser compreendido, rir, e enfrentar a cara feia do outro lado, como quem diz “é sua obrigação falar alemão”. Mas foi totalmente diferente quando cheguei em Bratislava e, na mesma situação, em uma banca de revistas, a moça que me vendeu os bilhetes de Tram ria tanto junto comigo que ficou marcada como um dos pontos altos da viagem – o idioma da conversa deve ter sido algo como Portuslovaco.

Acho uma pena que o meu olhar destreinado daquela viagem, nos idos de abril de 2007, não tenha captado esses momentos com a minha câmera, ou com mais atenção. Tenho centenas de fotos de monumentos e parques lindos de ver, mas a sensação de humanidade, tanto a boa como a ruim, ficou só na minha memória e em 3 ou 4 fotos…

É o subúrbio de Zagred, mas poderia ser o de Belo Horizonte

É o subúrbio de Zagreb, mas poderia ser o de Belo Horizonte

Tweets da semana

  • Just took my 74th mugshot! http://www.dailymugshot.com/main/show/23568 #
  • contas contas contas… reativando a planilha de orçamento doméstico… #
  • qdo o site oficial fala mais sobre a saúde dos musicos do que sobre os shows, acho que é sinal que o tempo ta passando #aerosmith #

[comentário] genocídio e reparação

comentário no blog da Iana, em resposta ao texto Sobre a tolerância

Pensando nesses casos eu sempre volto a um passo em que os cristãos costumam se confundir.

O caráter é uma construção educacional do dia-a-dia. A tolerância e o respeito à diferença são exercícios diários também, e é ótimo que o cristianismo os tenha em alta conta – mas eles NÃO são invenção nem dos cristãos nem de nenhum outro grupo religioso.

E essa diferença “sutil” no jogo “Ovo X Galinha” é fundamental pra entendermos por que as pessoas agem assim em situações extremas como essa da Nigéria, ou onde quer que tenha havido violência, étnica, religiosa, racial, de gênero ou qualquer outro tipo. Esses lugares têm história e tem um povo que precisa aprender a lidar com ela – independente de sua religião.

A Alemanha talvez seja o melhor exemplo de como um estado laico lidou (por 2 vezes e continuamente) com a reconstrução da sua identidade rachada – compreendendo que os rótulos (judeus, turcos, comunistas, cristãos, arianos, negros, homossexuais, latinos, etc, etc.) são metáforas que descrevem a origem ou a orientação, mas NÃO a essência do ser humano. Interessante que a luta dos países europeus continua pela diminuição da imigração “descontrolada” e passa pelo enrijecimento constante das suas regras de fronteira, mas não mais pelo questionamento da moral ou da humanidade do outro.

Lendo seu texto, me lembrei imediatamente de um outro que li há mais tempo, também na África, dessa vez sobre o genocídio em Ruanda e as formas que o governo e a população têm de lidar com a história que eles nunca deixarão de ter: (http://su.pr/4z5UwY) – é um caso muito “menos feliz” do que o da Nigéria, mas faz só 15 anos que a coisa aconteceu, não deixo de pensar que eles estão no caminho.

Tweets da semana

[comentário] do meu otimismo sem limites

em resposta ao texto eles falam, nós falamos em uma das minhas melhores descobertas na internet nos últimos tempos… tema: censura

lu,

seu texto é denso… como o assunto. tive inclusive que reler umas partes, mas ele tá muito bem encadeado. esse é um assunto que sempre me assaltou, sabe? e não me lembro de ter nunca discutido isso on, nem offline.

fato é que sempre me pareceram muito estranhas as tentativas de censura oficiais, inclusive as legitimadas ainda hoje por estados democráticos, como a proibição de formação de partidos nazistas na áustria e alemanhã ou mesmo a proibição de uso de “linguagem ofensiva” aqui ou em qquer país. Não porque eu ache que é deveria ser legal (ou ilegal) ser nazista, homofóbico, racista ou anti-qualquer-coisa, mas sim porque em geral, fico com a impressão de que a legislação é feita para colocar limites na expansão do pensamento – claro, como forma de coibir a ação: mas ela tenta justamente na esfera onde ela nunca vai conseguir agir.

de certa forma, ligo isso com a idéia do post da marjorie sobre bater para educar. Não podemos deixar de lado o fato de que os nossos legisladores são os mesmos que cresceram com essa idéia da repressão violenta, que faz, pela força, com que as pessoas guardem seus sentimentos e ações para si ao invés de compartilha-los com o mundo – assim como não podemos negar que certas formas dessa legislação ainda se fazem justificadas, uma vez que abrem o caminho pra opinião pública em assuntos que antes simplesmente não entravam em pauta.

E é aí que a minha incrível capacidade de ser otimista entra: nós estamos vivendo uma época de compartilhar. Da valorização da educação compartilhada com o diferente. E eu acredito muito na idéia da educação através do compartilhamento de experiências – em que você não precisa se forçar a deixar de pensar ou de sentir nada porque é “errado”; basta colocar-se em contato com o mundo com uma visão auto-crítica e fazer a matemática no final de cada dia.

Felizmente, eu vejo a nossa pirâmide etária e enxergo que os legisladores dos mandatos eleitos dentro de 12 a 18 anos serão justamente os garotos que hoje tem 12 a 18 e que estão reinventando a comunicação interpessoal, a criação colaborativa e as formas de relações humanas através da internet. São justamente eles os que estarão participando diretamente da vida política do país até lá. Dá até pra ser mais otimista (!) e dizer que esses moleques tão com 2 carros de vantagem por causa do tamanho da novidade que eles criaram e que ninguém vai conseguir imitar: é preciso nascer (ou se educar) assim.

ps: estou muito, muito feliz de ter conhecido os seus textos, da aline e da marjorie nesse último mês; vocês estão fazendo um nerd um tanto mais feliz com tanto raciocínio compartilhado! :)
ps2: juro que um dia aprendo a arte da concisão…

Copyright © 2010 o homem, omito…

CSS Template By RamblingSoul | WordPress Theme by Theme Lab and Best Hosting.