relações delicadas

Memórias do Esquecimento

“Meu medo desapareceu. Senti, apenas, aquela profunda tristeza das despedidas. Pensei nos meus filhos e rezei pensando neles. Ou morri pensando neles, enquanto tudo se repetia exatamente igual à vez anterior: eu caminhei, eles dispararam, senti as balas e a morte. Agora, porém, para terminar com a farsa, em vez de discutirem, eles gargalharam. Em algumas horas, eu fora submetido a dois fuzilamentos simulados.

Simulados? Agora, mais de 20 anos depois, sei que tudo foi uma simulação porque estou vivo, mas, naquela madrugada de 15 de julho de 1977, eu fui executado em terra alheia e morri.” (Flávio Tavares, Memórias do Esquecimento. Ed. Record.)

Essa semana foi repleta de histórias que me deixaram sem ar. A história da Uniban, a história da menina estuprada por 20 garotos e dezenas de testemunhas inertes nos EUA, e as histórias contadas no livro “Memórias do Esquecimento – os segredos dos porões da ditadura”, do jornalista Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos exilados, libertados em troca do Embaixador americano Charles Elbrick em 1969. Leitura recomendada para quem quiser uma visão de dentro, do período ditatorial. Tavares era colunista político, conhecia a causa pela qual lutava, diferente de outros jovens tão intrépidos quanto, que ele mesmo ilustra no livro.

Esses relatos me fizeram pensar, ainda sem nenhuma conclusão, sobre a relação delicada das pessoas com a violência; tanto com a violência sofrida como com a perpetrada. Uma namorada costumava dizer que todos somos assassinos em potencial, tudo depende das circunstâncias – o maniqueísmo é simples, e como tal, muito perigoso.

Em 1985 o exército brasileiro preparou um livro para explicar sua versão da história, era uma resposta à publicação de “Brasil, nunca mais“, organizado pela CNBB. Ficou conhecido como “Projeto Orvil” ou “O Livro Negro do Terrorismo no Brasil” e nunca foi publicado – consta que o presidente Sarney proibiu. Mas existe uma versão que circula na internet com cerca de 1.000 páginas datilografadas scaneadas, com os detalhes contados pelos militares. Assim como ele, existe um livro do Coronel Brilhante Ustra – 1º oficial a ser declarado torturador pela justiça brasileira – chamado “A Verdade Sufocada” este publicado e já na 5ª edição. Figura nas livrarias ao lado de livros como o de Tavares, a trilogia de Elio Gaspari e os dois tomos de Thomas Skidmore – viva a liberdade editorial.

Tem sido muito interessante mergulhar na história brasileira – como um retorno às aulas de história. Agora, sem a pressão do colégio e do vestibular e sem a imaturidade dos meus 15 anos, eu posso tentar começar a vislumbrar de fato o que aconteceram nos anos antes da queda do muro em 1989 (que é minha memória política mais recente). Antes de “Memórias do esquecimento”, este ano já li o excelente “1930″ e em épocas passadas tentei ler “A Ditadura Envergonhada” do Gaspari e “Brasil: de Getúlio a Castrelo” de Skidmore, ambos sem sucesso.

Tropeço nas minhas leituras e sinto que nunca vou conseguir entender de fato o que se passou; era preciso estar lá para viver a violência, a repressão, a falta de liberdade. Mas a história tem dessas coisas e tenho certeza que meus filhos não vão compreender completamente os intrincados cenários atuais – preciso aprender a não me frustrar com isso.

Mais do que isso, preciso aprender a observar e contar a minha história e os seus acontecimentos, o seu preconceito, a sua forma de violência, de repressão e de omissão, sem mocinhos ou bandidos, só com os seres humanos e seus defeitos diversificados.

efemeridade

Falei aqui semana passada sobre a coluna aí da direita e as minhas recomendações. Hoje, domingão, resolvi ler mais algumas coisas e acabei caindo, veja você, na minha antiga barra de favoritos, onde eu costumava guardar a lista de blogs que acompanhava em um passado distante.

Revisitar aqueles endereços me deu uma sensação interessante. Havia talvez pouco mais de um ano que eu tinha trocado o Firefox pelo Chrome como browser oficial – troca que desfiz há 2 semanas. Mas há também bons 4 anos (acabei de recuperar meu e-mail de validação – 25 de julho de 2005 – meu deus!*), que eu uso o Bloglines regularmente.

Mas interessante mesmo foi ver quantos daqueles endereços ainda estão ativos, me perguntar por que eles não haviam sido adicionados ao meu leitor regular – qual foi a minha mudança de percepção da importância daqueles blogs quando passei a usar um reader? Fiquei triste com as notícias (em alguns casos, anos atrasadas – viva o armazenamento ilimitado…) de que outros haviam fechado, mas isso é da natureza de escrever, não da internet. Escritores de livros também param de escrever quando perdem seus motivos e deixam obras incompletas que às vezes valem milhões – o que a internet fez foi levar essa possibilidade para os “comuns”, que nunca se aventurariam a escrever um livro, mas que escrevem páginas e páginas online que renderiam bons tomos.

* comentando sobre isso com o Bruno no msn, acabei me lembrando de coisas mais antigas ainda. Em pensar que meu primeiro PC tinha tela de 14″ polegadas com impressionantes 16 tons de cinza e um PC 386 DX2 de 33mhz que tinha um botão turbo pra aumentar pra 66mhz e um negócio estranho chamado Placa de Fax/Modem USRobotics 9600kbps que não servia pra nada. Naquela época não tinha esse negócio de vídeo/audio/modem on-board, todo mundo tinha caixas de floppys de 5 e 1/4″ (depois de 3 e 1/2″). E isso foi antes de o meu pai comprar o nosso primeiro Kit Multimídia (um nome chique pra uma placa interna com caixinhas de som e drive leitor de cd). Lá se vão 16 anos, e esse assunto vai render um próximo post aqui, #fato!

mastodontes políticos e nossos cérebros de ervilha

Acabo de terminar o volume de 764 páginas de Domingos Meireles: 1930: os órfãos da revolução. Levei pouco mais de um mês na leitura, dadas as condições atuais de temperatura e pressão; mas fui conduzido de forma tão sutil e impressionante pelo universo político da República Velha que termino a leitura com um misto de “eu já sabia” e o.O.

O autor faz um relato muito impressionante da mentalidade da época, com seus grupos políticos conservadores, opressores, comunistas, militares e das jogadas midiáticas de que todos eram protagonistas em tentativas nada subliminares de se manipular a opinião pública através dos jornais.

Impressionante mesmo foi ver quanto da mentalidade limitada e obscura dos personagens de todos os lados das forças políticas de da década de 20 continuam aí, presentes, firmes e fortes não só no ideário político dos nossos líderes – já que hoje temos sim bons exemplos de homens públicos “da era contemporânea” – mas na mente da população em geral. Nossos colegas de trabalho e de escola, nossos amigos de bar, repetindo hoje como se fossem ainda novas as mesmas desculpas, talvez um pouco mais floreadas pelo tempo, que revestiam as decisões políticas baseadas em interesses pessoais que reinavam no Brasil do Café.

Lá se vão 79 anos dessa história. E a solução ainda parece longe. O livro termina no início dos primeiros 15 anos de poder de Vargas, em 1930, belo gancho pra eu retomar a leitura de Brasil: de Getúlio a Castelo, do Thomas Skidmore.

Meu objetivo é simples: tentar entender como chegamos ao ponto em que chegamos – que caminhos a política e a opinião pública tomaram nos últimos 100 anos que culminaram nas bases políticas e na mentalidade social que hoje temos, ainda que precárias. Meireles foi muito feliz em me passar um panorama multi-partidário da política brasileira no primeiro quartil do século XX. O plano é voltar a ele em “As noites das grandes fogueiras”, sobre o período da Coluna Prestes, passar por Skidmore em sua descrição dos anos de 30 a 86, contrastá-lo com Gaspari na sua releitura da ditadura, e aí partir para os anos da redemocratização. Haja tempo!

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