Published on julho 3rd, 2009 by admin. Filed under comunicação, política | 2 Comentários
Esse post foi motivado pela Campanha da Fenaj pela regulamentação da profissão de Jornalista e por uma polêmica levantada outro dia nos comentários do blog da minha amiga Iana. Vou por tópicos pro texto não ficar muito cansativo:
Das profissões
Por que algumas profissões precisam de formações definidas e outras não? Qual é a formação superior necessária para ser um bom Presidente da República? Aliás, precisa-se mesmo de formação superior para ser um bom presidente? Em 120 anos de República, tivemos 9 presidentes militares, 19 advogados, 2 jornalistas, 1 médico, 1 empresário, 1 engenheiro, 1 sociólogo e 1 metalúrgico.
E dou um doce pra quem souber, sem procurar no google, quem eram os 2 jornalistas…
Isso mesmo, Ranieri Mazilli, que governou durante 13 dias em 1961 e o nosso queridíssimo José Sarney, presidente de 1985 a 1990. >> Acho que eu nem precisava continuar esse texto, mas eu sou chato, então vou. hehe…
Pensando bem, se compararmos o Presidente e o Jornalista, qual deles precisa mais de um diploma? Depois de 8 anos governados por um presidente que terminou o 2º grau em um curso supletivo e ainda assim é a 18ª pessoa mais poderosa do mundo e um dos presidentes mais populares do país, fica difícil crer que a profissão de Jornalista realmente demande mais educação formal. Não me entendam mal: não é a necessidade de formação dos jornalistas; é a forma como eles são formados é que compõe o problema. Por isso eu defendo que a qualidade da formação, muito mais do que o diploma, é que deve nortear o registro de Jornalista.
Das necessidades
E assim me posiciono contra a obrigatoriedade do diploma de jornalista. Assim como sou contra a obrigatoriedade do diploma de Relações Públicas e concordo em gênero, número e grau com o ministro Gilmar Mendes quando ele diz que o diploma só pode ser obrigatório em profissões cujo mau exercício ameace a vida e a segurança públicas.
O mau jornalismo pode causar problemas sérios? Pode. E causa. Mas isso tem muito mais a ver com a qualidade da edição dos veículos e com a falta de crítica e formação do público do que com a formação do Jornalista que, principalmente nos grandes veículos, não é mais do que uma peça Chapliniana na engrenagem da máquina de notícias. Tenho certeza absoluta que havia seríssimos Jornalistas formados e diplomados envolvidos na lambança do caso Escola de Base ou no Escândalo das Bicicletas.
Da formação do Jornalista
A meu ver, o que acontece nesse dois casos é uma confusão estranhamente comum: o diploma não é a profissão e a profissão não se resume ao diploma. Em ambos os casos, a justificativa para a manutenção da obrigatoriedade é a necessidade de formação de qualidade ética e técnica para o exercício da profissão.
Então sejamos razoáveis e separemos as duas coisas. Acho que todos acreditamos que a formação que tivemos na nossa faculdade faz de nós pessoas mais éticas e com melhor definição crítica de mundo do que eramos antes. Claro, mas em que isso nos diferencia dos nossos colegas Sociólogos, Cientistas Politicos, Historiadores, Linguistas, Filósofos e Designers (pra ficar no campo das ciências sociais aplicadas)? Pra mim, em nada.
Olhando pelo outro lado, acredito que qualidade técnica de um Jornalista está baseada em alguns critérios fundamentais: técnica de apuração, técnica de redação e técnica de edição. Temos noções de todas elas durante a faculdade, mas com uma grande ênfase na técnica de redação, até porque as técnicas de apuração e de edição só serão aprendidas de verdade no dia-a-dia. E isso é natural. Fazer jornalismo não é uma função simples, tampouco uma questão de fundo teórico; a prática das ruas não é possível de ser aprendida nas faculdades, por mais que jornais laboratório muito bons como “O Marco” sirvam de ajuda.
O campo da técnica de apuração tem, inclusive, mais a ver com a nossa ética e crítica social do que com o exercício diário da notícia. Apurar bem requer os mesmos cuidados de ler e interpretar bem: atenção a detalhes, cuidado com as fontes, cruzamento de informações e muita cautela nas conclusões. Já editar bem requer, no contexto jornalístico atual, muito mais conhecimento da linha editorial do veículo que se representa, suas convicções políticas e sociais e o conhecimento do público-alvo do que qualquer faculdade pode nos apresentar.
Da decisão do Supremo
A decisão do Supremo de retirar a obrigatoriedade do diploma para o exercício é, portanto, válida e muito acertada, do ponto de vista legal. Retira-se não da “categoria” de Jornalistas, mas da exclusividade de “Bacharéis em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo” a exclusividade sobre a produção de textos informativos para os veículos de mídia, ou seja, acaba-se com uma reserva de mercado que não faz sentido, uma vez que a formação necessária para o bom exercício da profissão pode ser alcançada também por outras formas. Por que uma pessoa com sólida formação ética e crítica não poderia se formar em um curso técnico de apuração e redação e tão boa Jornalista quanto qualquer outra? Escrever bem é, no meu entender, o menor dos problemas da formação jornalística. Qualquer pessoa que tenha lido o suficiente na infância e adolescência pode escrever melhor do que um leitor medíocre formado em Jornalismo.
Do futuro
Os Jornalistas tem um sindicato bastante forte e atuante, políticamente inclusive, ao contrário dos Relações Públicas, que se agrupam em conselhos fracos e não-atuantes, que não fazem jus ao seu papel atribuído pelo governo. Em ambos os casos, no entanto, a obrigatoriedade de diploma e registro serve a um único princípio: reservar vagas no mercado de trabalho aos egressos das universidades com essa formação, o que cria, no caso dos Jornalistas, um imbróglio pros não formados, e no caso dos RPs, uma idiossincrasia gigantesca em relação à “quais tarefas são privativas do profissional”, além de alimentar as eternas lutas pelo “fortalecimento da profissão” – como se profissões fortes fossem feitas de discursos, e não de profissionais “de peso”.
Com isso em mente, acredito que resta apenas uma escolha ou direção para os cursos e empresas de Jornalismo: formar sólidas mentes críticas, capazes de raciocinar e analisar contextos e narrativas, personagens e tramas, visões locais e visões globais, atribuindo a elas ainda uma base da técnica de redação, que, como comentei em outro post, reavivou os jornais, ao mesmo tempo que matou a essência da notícia. Nesse sentido, o curso de Jornalismo passa a ser o que todo curso superior deveria ser: um formador de pessoas com foco na produção e análise de notícias, não um formador de profissionais redatores. E é por esse motivo que ele não vai acabar. Porque formar pessoas é importante em qualquer área. Se os cursos de Jornalismo fizerem o seu dever de casa direito, provavelmente passarão inclusive a atrair mais gente, porque convenhamos, formação crítica, salvo raros e brilhantes casos, não é mesmo o forte da universidade brasileira.
Não podemos esquecer que as empresas de mídia são, antes de tudo, empresas. E empresas visam o lucro, e para obtê-lo precisam de qualidade nos seus produtos. E produtos de qualidade não são adquiridos a qualquer preço, nem por qualquer formação. Por isso o diploma de Jornalismo continua a valer. Por isso a formação acadêmica ainda será importante.
E por isso não é necessário temer que o padeiro venha a tomar o seu lugar como Jornalista. Isto é, exceto se o padeiro tiver uma melhor crítica e um melhor texto do que o seu. Aí mermão, tu tá lascado mesmo.
sobre esse assunto, vale a pena ler:
Porque sou jornalista – Iana Coimbra
O diploma e as faculdades de jornalismo – Luis Nassif
Ainda sobre o diploma de jornalista – Luis Nassif
Cai diploma para jornalistas. Comofas? – Marcelo Träsel
STF não sabe o que é jornalismo – Marcelo Träsel
Diploma, pra quê te quero – Marjorie Rodrigues
Advogado e jornalista – Renato Pacca
e uma pá de outros…
Published on junho 9th, 2009 by admin. Filed under comunicação, política | Nenhum Comentário
Nunca foi tão fácil e rápido jogar pedras no telhado do vizinho.
Preparar estratégias pensando na nossa capacidade de combate e de resposta inclui, além de formar nossas defesas com base nas informações existentes: não criar polêmicas desnecessárias, não ficar calados, mas não gerar informações novas que não possam ser sustentadas e não usar de terceiros para dar informações institucionais. O risco que corremos não é sempre o mesmo. O apedrejamento pode ser merecido ou imerecido; justo ou injusto; amador ou profissional; massivo ou tímido; não existe fórmula – a única certeza é que o que vem são pedras mesmo, de verdade. Nesse sentido, as ferramentas, inclusive as jurídicas, funcionam somente como o muro que recebe as pedras, mas nunca substituirão as pessoas que pensam e montam a negociação com os adversários.
Alguns exemplos recentes falam por si só:
Dafra – Você por cima
Abril: Dafra – você por cima
Maio: Dafra – você por cima da merda
Resposta da Dafra: usou a tática jurídica e tirou os filmes do ar por infringirem a lei de direitos autorais.
Resultado: os vídeos continuam lá e a campanha continua aumentando. Só o site viralvideochart.com conta mais de 15 cópias e cerca de 250.000 exibições.
Lição: a mesma do vídeo da Cicarelli – era melhor não ter feito nada. Tirar os vídeos do ar ao invés de oferecer uma resposta honesta às críticas só aguça a curiosidade do usuário, além de criar um “desafio” informal pra que o vídeo se reproduza cada vez mais. Se a Dafra tivesse dado uma resposta técnica, diretamente ao usuário inicial, e tirado seu time de campo, a polêmica seria muito menor. Resta saber se ela viu quando a polêmica começou ou se só foi perceber um mês depois. A Dafra converteu o público do youtube em seu inimigo.
MPM – Logomarca de São Paulo 2014
31 de maio: MPM Propaganda – A logomarca de São Paulo na Copa 2014
1º de junho: Mario Amaya: Deixem os logotipos para quem sabe desenhá-los
1º de junho: Carlos Merigo: O temível logo de São Paulo, cidade sede da Copa de 2014
2 de junho: Copa 2014 @ SP REMIX
Resposta da MPM: Até agora nenhuma, exceto uma declaração de um dos criadores, antes da polêmica, que só aumentou a ira dos comentaristas. Alguns perfis fake foram criados para defender as idéias da MPM, mas como de praxe, foram severamente reprimidos pelos comentários dos demais.
Resultado: O public-bashing continua depois de uma semana só vai morrer quando um fato novo tomar o lugar deste ou quando os formadores de opinião se cansarem.
Lição: Todo cuidado é pouco quando se trata de paixões nacionais – as polêmicas são inevitáveis. Mas quando as críticas chegam de gente “de peso” (como o Mario Amaya) e/ou de projeção (como o Merigo), designers e publicitários respeitados e formadores de opinião, convém não ignorar. Se a MPM tivesse abertamente respondido às críticas, defendendo sua criação ou reconhecendo seus erros, a polêmica teria esfriado no começo da semana passada. O que alimentou os leões foi justamente a falta de um posicionamento claro por parte da agência. Ainda tem gente esperando que ela volte atrás e diga que foi uma pegadinha. O rastro desse episódio é curto, atinge só a comunidade dos “antenados” em publicidade, mas em se tratando de uma MPM, ele não é nada desprezível. A MPM ignorou o seu público e vai sair manchada da história.
GM Reinvention
1º de junho: GM Reinvention website | GM Reinvention vídeo
4 de junho: GM Retardation website | GM Retardation vídeo
Resposta da GM: Nenhuma resposta direta, até agora. Mas a alimentação dos canais de informação foi muito reforçada em 2009, com fatos positivos e negativos, preparando a empresa para o inevitável. a GM mantém blogs da alta direção falando sobre o assunto, ao mesmo tempo em que coloca seus assuntos-chave de produtividade, novos desenvolvimentos e inovação. Entre eles estão:Driving Conversations, dedicado ao público europeu, onde o VP de Comunicação para a Europa fez um comentário muito interessante e honesto sobre a relação da Opel com a imprensa e o Fast Lane, dedicado ao público mundial, mas principalmente dos EUA, onde o CEO anunciou a falência, respondeu comentários e participou de ações interativas, além da participação de outros altos-executivos.
Resultado: Aparte os blogs que insistem em chamá-la de Government Motors, o que, por si só, é uma piada pronta, inofensiva e que já está no ar desde 2008, não deve haver muita repercussão além dos fatos – já que a GM responde aos jornalistas e ao público em geral com eles. Chama-la de Goverment Motors é, no mínimo, uma piada legítima e espirituosa – tenho certeza que o próprio Fritz Henderson riu. Uma empresa com bases sólidas de informação online (o FastLane está no ar desde 2005) não vai sucumbir a ataques momentâneos, por mais pesados que sejam, se a estratégia de reinvenção for mesmo uma realidade.
Lição: Ao que parece, a estratégia da GM é a de continuar no seu caminho, divulgando e dando espaço para contribuições não só de jornais mas tb de blogs na sua pagina, apoiando-se no nome que não vai cair assim tão facilmente e na relevância do material que está publicando. Ao optar pela idéia de reinvenção, a empresa está admitindo que errou durante um tempo (o próprio texto do vídeo diz isso muito claramente) e isso dá a ela, junto à grande maioria da opinião na internet, uma carta meio-branca pra usar – todo mundo gosta de gente e de empresas humildes, principalmente quando elas empregam dezenas de milhares de pessoas e podem dizer sem medo que são inovadoras. Importante dizer que admitir os erros e os defeitos em um único vídeo é bom, mas não gera relevância. O conjunto de pessoas certas falando as coisas certas com frequência é que tem feito o acontecimento. A GM transformou os próprios funcionários e todas as suas ações em veiculadores e trata a mídia como adversária, não como inimiga.
Petrobrás Fatos e Dados
2 de junho: Petrobrás lança blog Fatos e Dados
6 de junho: Folha: Petrobrás usa blog para vazar reportagens (para assinantes)
8 de junho: Associação Nacional de Jornais divulga nota de repúdio
Resposta da Petrobrás: Por enquanto, está rebatendo cada um dos artigos negativos no blog, usando ao máximo as armas da imprensa contra ela.
Resultado: Por enquanto, extremamente crítico por parte da imprensa e positivo por parte da opinião pública, o que vai fazer com que as investigações sejam mais firmes e pesadas, mas que o apoio à empresa está mais sólido por parte da população virtual.
Lição: Existem várias cartas a ser jogadas e essa batalha ainda está no começo. A briga deve estender-se para os domínios da publicidade e tomar contornos econômicos inclusive, um tipo de pressão que a Petrobrás pode fazer sobre a imprensa, mas que provavelmente deixará para último caso, porque pode ser percebida como jogo baixo, algo como o que alguns governos costumam jogar. Ao que tudo indica, a empresa está construíndo uma base sólida de informações, um respositório de defesa visando vencer no ringue uma briga política, antes que ela vá ao tapetão. A reação da imprensa tem sido ainda muito tacanha, acuada, mas pode ser que resolvam em breve sair com alguma grande notícia ou furo que desarme a estatal – nenhuma base de informação está imune a um furo bem dado, e todo mundo sabe que a Petrobrás está longe de ser uma ovelhinha no jogo político. Resta saber como ela está se preparando por trás dos panos pra quando esse momento chegar. A Petrobrás transformou a opinião pública em um aliado e produziu um feito: um veículo chapa-branca com mais credibilidade e apoio do que a imprensa supostamente livre.